Opinião: QUAL FUTURO SEM EDUCAÇÃO?

Que a educação seja “prioridade” para um Estado que almeja progresso nas suas mais variadas dimensões, já ouvimos dizer inúmeras vezes nas campanhas eleitorais que não são poucas na história recente do nosso país. Mas só nas campanhas eleitorais. Porquê? Todos sabemos a resposta: porque a luta é pelo poder e não pela realização das principais necessidades da população, do povo, aquele que vota nas mesmas eleições.

Parece consensual entre nós – guineenses – que para o tão reclamado desenvolvimento do nosso país é preciso formar homens e mulheres que sirvam a todas instituições reais e imagináveis do Estado e da sociedade. Sem qualquer menosprezo a outras formas de conhecimento que servem à maioria das nossas comunidades constituídas pelo país, o modelo em que se encontra sistematizado o aparelho do nosso Estado obriga-nos a ter ministros, secretários de Estado, directores gerais, administradores, gestores que, competentes, sirvam ao melhor funcionamento das instituições responsáveis pela melhoria das nossas vidas. Porém, o paradoxo de sempre é andarmos em práticas contrárias a esta evidência: “skola ta kumpu tera” (é pela educação que o país se desenvolve), como todos os movimentos estudantis cantam durante protestos e protestos que a sociedade e os governos fingem não compreender a legitimidade e carácter de compromisso com o bem-estar colectivo. Esses estudantes, sim, preocupam-se com futuro do país. Aliás, é o próprio Ministro da Educação que, numa recente intervenção pública, diz: “As pessoas descuidaram da educação neste país”. Não podia estar mais de acordo com ele, apesar de ser ridículo ser ele quem faz esta afirmação numa altura em que as escolas públicas estão encerradas há quatro meses pela incapacidade de o governo de que faz parte encontrar soluções às legítimas reivindicações dos sindicatos dos professores.

Como se nada disto estivesse a acontecer, entretanto, a disputa política anda penosamente em torno de maiorias consolidadas ou novas maiorias no parlamento para a manutenção do actual quadro governativo ou eventualidade de formar-se um novo governo, com novos actores políticos. Barulhos em torno de quem é desta ou daquela etnia, de quem é mais ou menos guineense entre os dirigentes de partidos a governar, os colocados na oposição e militantes dissidentes de um ou de outro lado da barricada. Quem fala da greve no sector educativo entre eles? Já se ouviu falar de uma proposta desses partidos todos (MADEM G-15, PRS, APU-PDGB e PAIGC) sobre o que se passa com as escolas públicas que fazem o sistema educativo tratado na campanha eleitoral de prioridade das prioridades? Nenhum deles! Nada! E sabemos porquê: porque estão mais preocupados com estar ou não estar no governo e, como é seu modo de estar na política, preocupados em ter acesso às fontes de rendimento financeiro do Estado para servir aos seus caprichos e aos dos seus familiares.

Todos estes comportamentos revelam o esgotamento de uma classe política maioritariamente obsoleta, representada pelas formações políticas acima enumeradas, e que cada vez mais empurram a Guiné-Bissau para um futuro medonho, mais medonho do que o massacrante presente do seu povo. A nulidade material do ano lectivo 2020/2021 é um facto consumado, só falta a sua oficialização, mesmo que ainda se venha a encontrar demagogia de “salvá-lo” como de costume, porque não há condições pedagógicas, nem da organização do sistema educativo, que permitam recuperar um ano lectivo paralisado desde início apenas em meses de Maio e Junho. E, assim, é mais uma geração de guineenses que se vê impedida de aprender a conhecer os reais problemas do seu país e imaginar soluções para cada um deles a partir das competências que desenvolvem a estudar, estudar para ser ministro, presidente, directora geral, professor, enfermeiro, engenheira agrónoma, biológo, ambientalista, etc. O futuro de um país inteiro hipotecado! Um país a sangrar de tantas facadas que levou e alternativas políticas para a sua salvação que demoram a serem forjadas.

Por: Sumaila Jaló,

professor e activista     

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