Pintor Carlos Alberto: “ESTADO GUINEENSE REPUDIA A ARTE PLÁSTICA! NEM SEQUER GOSTA DE FALAR DE ARTE”

[ENTREVISTA maio_2021] O pintor guineense, Carlos Alberto Teixeira de Barros, acusou o Estado da Guiné-Bissau de abandonar as artes plásticas e de não ter dado nenhum apoio para impulsionar o setor que destaca como importante para o desenvolvimento do país. E acrescentou que o “Estado guineense aparta a arte plástica, não gosta e nem sequer fala de arte! O próprio governo não se dedica à arte e que um grande número de membros do governo não se interessa pela arte ou não sabe a sua importância”. 

Carbar, como é conhecido no mundo das artes, é o pintor da arte plástica mais antigo do país e conta hoje com 73 anos de idade, mas começou a trabalhar na área na década de 1970 e tem  passado a maior parte da sua vida na arte plástica. Carlos Alberto Teixeira de Barros é engenheiro de profissão formado na Rússia na área de arquitetura. Porém, há muitos anos que se tem dedicado à arte plástica, deixando a arquitetura, contudo, as pessoas que o conhecem e sabem das suas qualidades na arquitetura, solicitam os seus serviços para concepção de projetos de plantas de casa. 

CARBAR: “ESTADO NÃO DEVERIA FOCAR-SE MAIS NA MÚSICA E DEIXAR A ARTE”

O decano da arte plástica guineense teceu duras críticas aos sucessivos governos na entrevista concedida ao Jornal O Democrata (maio de 2021) para falar do seu percurso de cerca de 50 anos, bem como da situação em que se encontra esse setor atualmente na Guiné-Bissau. Carlos Alberto Teixeira de Barros disse ainda que a arte plástica está mal encaminhada, como também os pintores que ainda trabalham nessa área não têm recebido apoios necessários para desenvolver as suas atividades. Frisou que os artistas fazem de tudo para dar o seu melhor, mas estão “condicionados e restringidos” e que o Estado não deveria focar-se mais na música deixando de lado a arte no seu todo.  

“As dificuldades neste ramo são imensas. Até conseguir materiais é um problema enorme. Somos obrigados a pedir ou mandar comprar materiais do exterior e alguns colegas pintores até este momento não têm sequer um pincel, estão com falta de tinta. Mesmo querendo misturar, não conseguem porque há dificuldades em conseguir as cores primárias: vermelho, azul e amarelo como outras no caso, o branco e o preto, as mais difíceis de encontrar”, explicou o artista, que, entretanto, disse acreditar que se o setor tivesse algum amparo do Estado guineense, a arte plástica revolucionaria muita coisa na Guiné-Bissau, sobretudo no que concerne à camada juvenil.

“Muitos ainda não descobriram seus talentos, porque “não têm possibilidade para fazê-lo. Porque se tivessem essa possibilidade, haveria muitas histórias a serem contadas através da pintura”.

Carbar disse ter ficado alegre por poder testemunhar os talentos “extraordinários”, bem como os avanços e dedicação da nova geração à pintura e ainda com a iniciativa de demostrá-lo, através de muralhas com retratos de heróis nacionais.

Neste sentido, Carlos de Barros voltou a insistir no apoio às artes na Guiné-Bissau. Afirmou que, tal como os jovens que desenham nas ruas, há vários e bons desenhadores com talentos incríveis que só precisam de apoios para poder conseguir materiais, por isso “muitos trabalham apenas para ter o pão de cada dia”.

Assegurou ainda que o Estado deveria criar uma aldeia artesanal, escola de formação, ou formas de ter uma galeria, onde os materiais para os pintores fossem disponibilizados. Apontou que a compra de quadros pintados por artistas pelo governo como algo raro, tendo acrescentado que o governo deveria promover exposições e compras de quadros no Palácio do governo, como uma contribuição do executivo para o desenvolvimento do setor e apoio aos pintores.

ELOGIOS E VIAGENS SÃO OS ÚNICOS INCENTIVOS AOS ARTISTAS PLÁSTICOS NA GUINÉ-BISSAU

“Eu tenho aqui uma escola de arte plástica. Eu mesmo dou formação já há muitos anos, uns 7 ou mais, mas é preciso uma coisa maior, aquela que o governo poderá disponibilizar para todos os cidadãos” contou, para de seguida salientar que se o governo se empenhasse mais e se dedicasse na compra de quadros de artistas nacionais, os artistas sentir-se-iam animados e a juventude ou os demais artistas não teriam a necessidade de sair ou fugir do país para se integrarem no mercado artístico estrangeiro.

O pintor e escultor explicou que os seus quadros retratam mais a vida quotidiana e as dificuldades dos guineenses. Enfatizou que pode ser encontrado ainda nos seus quadros o “obscurantismo e o surrealismo”, como também muitas vezes aplica o modernismo e a paisagem.

O artista afirmou que cria um mundo novo para ele através do desenho, sublinhou que pintar é a sua forma de ser e que se sente bem com a pintura. “Vou criando as cores de que gosto, inventando mais escuro, claro ou intenso, assim sucessivamente”, revelou.

Carlos Teixeira de Barros recordou que quando ainda estudava na Rússia, representou aquele país em vários eventos, por exemplo, na Checoslováquia e também esteve em feira internacional em representação do mesmo país.

Questionado se consegue viver da sua atividade da arte plástica, respondeu que antes conseguia viver do seu trabalho como arquiteto, mas ultimamente tem deixado de fora as atividades de arquitetura e se dedicado mais à pintura.

“Já lá vai muito tempo que deixei de trabalhar “in loco” como arquiteto, às vezes pedem-me para fazer um projeto e faço” contou. Salientou que se dedicou “bastante” à arte plástica porque gosta muito de pintar, mas também é escultor e faz esculturas de peças utilitárias no caso de malas, baús, carrinhos de barro e bancos.

“Um pintor ganha o único benefício na Guiné-Bissau, que é levar o nome do país e carregar a bandeira sempre que viaja. A nível pessoal, é através da venda de quadros que consigo sobreviver, já cheguei a vender um quadro por um milhão de francos CFA”, informou. Acrescentou que em termos de compradores, os europeus e alguns nacionais têm comprado os seus quadros, tendo destacado o empresário e político Carlos Gomes Júnior (Cadogo Fidju) como um dos compradores. Para além de Carlos Gomes Júnior, o pintor mencionou nomes como Caló Paquete, Duca Miranda, a Petromar, a Aldeia SOS e a ONG PLAN.

O decano da arte plástica disse que aprendeu a desenhar com o seu irmão mais velho que, era muito bom em desenho, mas que se formou em medicina e hoje em dia é médico de profissão.

“A pintura está no sangue da minha família. Quase todos nós pintamos: meu pai, os meus irmãos, sobrinhos e os meus filhos também”, contou.

Solicitado a pronunciar-se sobre a vigente situação política no país, Carlos Alberto Teixeira de Barros sublinhou que a situação está “bastante caótica”, o que não levará o país a lado nenhum. Notou que a nova geração irá sofrer bastante, porque “a situação política do país está a caminhar para se tonar ainda pior”.

“Estive na luta de libertação nacional. Eu sou do PAIGC e sempre lá estou, mas digo que é preciso sinceridade para sairmos desta situação. Há falta de sinceridade para conosco mesmos”, criticou e apelou  à nova geração para não desprezar a escola, “que encarem e estudem e que jamais deixem a escola por qualquer outra coisa”.

Alberto Teixeira de Barros enfatizou que no passado pintar era outra coisa na Guiné-Bissau, porque o então Presidente Luís Cabral apoiava muito a arte plástica, ou melhor, a arte no seu todo. “Sinto muita falta daquela época!”

Salienta-se que o pintor representou a Guiné-Bissau em diferentes países e ainda fez exposições em Portugal e noutros países da Europa no caso, a Espanha, Rússia, Checoslováquia e Alemanha. A nível da África, já realizou exposições no Togo, Abidjan, Benin e Senegal, como também chegou a levar as suas obras de arte para a América do Norte, concretamente no Canada.

Por: Djamila da Silva

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