Setor de Bubaque: DEFICIENTES SEM APOIOS REFUGIAM-SE NA VENDA DE COLARES TRADICIONAIS PARA SOBREVIVEREM

[REPORTAGEM julho 2021] Os deficientes  do Setor de Bubaque tentam sobreviver  da venda de colares tradicionais confecionados  por eles, com sementes ou cavacos de algumas árvores locais, que compram na Ilha de Orango e de Uno, de rendas feitas pelas mulheres da associação e “bus” que compram em Bissau. Tudo começou a piorar depois de os apoios de terceiros, amigos e familiares de algumas pessoas com deficiência, apoios esses que eram canalizados para Bubaque, se revelarem insignificantes e começarem a escassear, sobretudo durante a vigência e no período mais crítico da crise sanitária provocada pelo novo Coronavírus.

Segundo o vice-presidente da Associação das Pessoas com Deficiência do Setor de Bubaque, Adelino Duarte da Silva, depois de tantos apoios recebidos dos missionários da Igreja Católica de Bubaque, a Missão Católica local decidiu como alternativa subvencioná-los para começarem a procurar alternativas para sobreviver das próprias atividades e iniciativas.

ASSOCIAÇÃO: “NÃO RECEBEMOS NENHUM APOIO DO ESTADO NO PERÍODO MAIS INTENSO DA PANDEMIA”

“No momento crítico da Covid-19, foi quando mais sentimos dificuldades. Somos pessoas com deficiência e algumas deficientes motoras estão sem cadeiras de roda. Como poderiam deslocar-se para procurar a sobrevivência”, questionou.

Adelino Duarte da Silva denunciou que pessoas com deficiência no setor de Bubaque nunca beneficiaram de apoios das autoridades nacionais  e que estruturas similares de outros setores ou regiões do país têm beneficiado, nomeadamente: de pensões às vezes.

“Criamos a nossa organização há um bocado mais de dois anos, justamente para contornar a nossa  situação, mas os resultados não têm sido eficazes. Realizamos a nossa Assembleia Geral e enviamos todas as papeladas  para Bissau, mas até agora não conseguimos respostas satisfatórias”, disse.

Adelino Duarte da Silva afirmou que o único apoio significativo recebido no período crítico da Covid-19 foi de um dos familiares do antigo administrador do setor de Bubaque, Papis Martins.

“O apoio que recebemos de um dos familiares desse senhor foi de 25 sacos de arroz de 25 quilogramas, 10 sacos de cinquenta quilogramas e óleo alimentar para cento e quarenta pessoas com deficiência, que na altura estavam inscritas. Podem fazer ideia de quantos quilogramas de arroz beneficiou cada pessoa com deficiência”, enfatizou e disse que outra ajuda recebida pela associação foi de 75 quilogramas de arroz e um saco de açúcar de cinquenta quilogramas terá vindo, supostamente, do governo.

O vice-presidente da Associação das pessoas com deficiência do setor de Bubaque acusou um grupo de filhos do Arquipélago dos Bijagós que não quis identificar, de usar os nomes das pessoas com deficiência através de uma listas enviada à essa organização  para angariar fundos que teriam sido usados na compra do arroz, mas que durante a distribuição do produto, as pessoas com deficiência foram simplesmente “descartadas”.

“Situações como esta acontecem, as pessoas usam nomes das pessoas com deficiência, mas a organização não beneficia de nada. Nós quando recebemos o apoio que referi atrás, partilhamo-lo com os outros, mas por que razão usar as pessoas com deficiência e depois descartá-las?”, questionou e disse que receberam informações que a organização fez três vezes a distribuição do mesmo donativo sem incluí-los como beneficiários, embora tenha feito várias exigências e pedido explicações à organização que liderava a iniciativa.

Em relação aos transportes, frisou que não estão isentos, porque não há nenhuma política administrativa que possa enquadrá-los ou isentá-los do pagamento ao navio que faz ligação Bissau/Bubaque.

Sobre o trabalho de confecção de colares, pulseiras, porta-chaves, entre outros, Adelino Duarte da Silva esclareceu que a oficina era do grupo de adolescentes da Paróquia local e desde que a associação a assumiu, faz já cinco anos. Segundo o vice-presidente da Associação das Pessoas com Deficiência de Bubaque, grande parte dos materiais é vendida na Itália com ajuda do Padre da Igreja de Bubaque, porque não têm a mobilidade para fazer grandes deslocações para venderem os materiais que confeccionam.

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“Para ser sincero, o Padre compra-os à associação depois manda-os para Itália, mas já há dois anos que não tem sido assim. Talvez a procura seja menor”, disse e assegurou que o dinheiro resultante da venda dos colares, das pulseiras, dos porta chaves… metade é canalizada para o sustento pessoal das pessoas com deficiências e a outra para o fundo da organização.    

Em termos de perspectivas, Adelino Duarte da Silva anunciou que a sua organização tem em manga um projeto que, posteriormente, vai submeter aos parceiros para aquisição de materiais para confecção  de rendas, máquinas de costura e outros.

Quanto às consultas, afirmou que uma vez os técnicos do Centro de Próteses de Bissau consultaram apenas pessoas com deficiência do setor de Bubaque. Frisou que o plano era alargar as consultas às outras localidades, nomeadamente: Uno e Caravela, mas dada à falta de meios, a operação abortou-se.

“Temos informações que estão a mobilizar fundos para concluir os trabalhos. A nossa esperança está agora na iniciativa desse Centro, porque já entregamos um orçamento com as necessidades básicas da organização”, salientou.  

Por: Filomeno Sambú

Foto: F.S   

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