Editorial: GUINÉ-BISSAU – TUDO NA MESMA…!

Mais uma vez, o país no seu todo, voltou a dançar a música de diversão com a animação do actual regime. A queda do Parlamento foi um meio para esta farsa. No final do dia, depois de tam tam, o Zé Povinho percebeu que nada mudou. As suas condições de existência vão de mal a pior. Tudo está como começou. A indiferença, a ilegalidade e a omissão de responsabilidade continuam a ser regras privilegiadas de (des)governação. Tudo está na mesma. O anunciado elenco governamental é uma repetente equipa sem piada, era previsível. O figurino do governo de “iniciativa presidencial” inconstitucional não passa de um esquema para furtar atenção dos menos atentos. Os motivos são outros.

A verdade é que os aliados da coligação em estado de “aborto político” confirmado  estão de costas viradas e os eventos dos últimos dias ilustram perfeitamente esta realidade. Não há dúvida sobre a colisão de agendas entre os principais partidos que sustentaram o regime até aqui, sobretudo com o derrube do Parlamento, nomeadamente o MADEM-G15, PRS e APU-PDGB. Enquanto, de um lado o MADEM-G15 e APU-PDGB já vinham a pagar a fatura de fragmentação interna, quase consumada com implicações diretas no posicionamento político de cada uma das duas formações políticas, o PRS por seu turno enfrenta os esperados ventos do pós-Congresso. 

Era previsível a turbulência no período pós a reunião magna de janeiro deste ano. Porém, a turbulência, ela também um capote externo resultante do impasse entre o novo Presidente em exercício do partido, Fernando Dias,  e o inquilino do Palácio presidencial, Umaro Sissoco Embaló que esperava uma liderança diferente. Aliás, o derrube do Parlamento tem ligação com as novas dinâmicas no partido fundado por Kumba Yalá. De guerra fria passou-se a uma guerrilha aberta com contornos que ainda prometem.

O posicionamento do PRS durante e pós a (re) formação do governo é sinal do impasse contrariamente aquilo que o mesmo partido quis fazer acreditar à opinião pública, recorrendo a um fraquinho e infeliz argumento de “lapso de comunicação” que não convenceu à própria liderança do PRS muito menos os militantes e aos cidadãos guineenses. Foi uma inaceitável tentativa de justificar o injustificável. 

 A recusa de três destacadas figuras do partido em tomar posse como ministros está longe de ser uma mera coincidência, muito menos fruto de um lapso de comunicação, não! O PRS teve e tem o medo de dizer a verdade ao povo sobre o que realmente aconteceu e porque razão aconteceu? Só ele sabe. Porquê o comunicado partilhado e lido perante os comissários políticos na última reunião não foi submetido à votação? Se o partido fosse consultado na indigitação dos nomes, porque o “trio” não compareceu na cerimónia da tomada de posse?  São apenas umas questões que não queremos calar..!

A não integração do PAIGC no governo também foi um episódio previsível para qualquer observador atento. Era ilusório acreditar nessa hipótese, considerando o que está em jogo. Neutralizar o PAIGC, aliás, a direção cessante chefiada por Domingos Simões Pereira por forma a impedí-lo de participar nas próximas eleições.   Portanto, as agendas aqui também são irreconciliáveis. O PAIGC não está no executivo porque não tinha como lá estar, não porque quem formulou o convite assim quis, mas porque os interesses são opostos. 

A gestão do processo que deverá conduzir o país às eleições legislativas ilegalmente agendadas para Dezembro próximo tem para já um sinal do que será amanhã. A figura escolhida para Administração Territorial não tem condições objetivas para a tarefa. O percurso do homem confirma o que escrevo aqui. O próprio interessado sabe muito bem que não está em condições. Está lá só para cumprir agenda alheia que não coincide com agenda da Guiné Bissau.

O anunciado governo já provou que não tem pernas para lidar com os desafios que a Guiné Bissau e seu povo enfrentam. Não existem sinais que a institucionalizada  indiferença deste regime perante à inflação galopante que consome vidas, ampliada agora com a subida dos preços dos combustíveis, perante violações de direitos fundamentais de cidadãos, vão mudar.  O povo está a pagar os custos de uma incompetência e irresponsabilidade de um poder desprovido de qualquer compromisso patriótico. Se tivesse o mínimo compromisso, já haveria solução a esta crise. 

Sobre o aumento dos preços de combustível e consequentemente dos transportes, a única e assertiva medida atenuante para um país totalmente dependente em importação de hidrocarbonetos (e não só) é a redução das taxas aplicadas aos importadores que não teriam o motivo para aumentar os preços e evitar desde logo a subida dos custos dos transportes internos. E como cobrir esse buraco resultante de redução das taxas no Orçamento Geral de Estado (se é que existe)? A solução passa por corte nas despesas fúteis e supressão de viagens turísticas e de subsídios milionários.

Por: Armando Lona

Editor chefe

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