Uma equipa médica nigerina, com o apoio de técnicos guineenses, realizou em Bissau, no Centro Hospitalar de Noma, um conjunto de cirurgias plásticas e tratamentos a 18 doentes afetados pela doença de Noma. A maioria dos pacientes era composta por crianças e adultos guineenses, tendo sido igualmente assistidos cidadãos provenientes do Senegal e da Guiné-Conacri.
A missão foi liderada pelo cirurgião plástico Issa Ousmane Hamady e integrou ainda especialistas em anestesiologia e instrumentação cirúrgica. Os profissionais nigerinos contaram com o apoio de técnicos de saúde nacionais, nomeadamente anestesistas e instrumentadores recrutados pelo Centro Hospitalar de Noma.
Na Guiné-Bissau, os casos de Noma são mais frequentes nas regiões de Oio, Bafatá e Gabú, sendo Oio considerada a zona com maior prevalência da doença. Durante a campanha de cirurgias e tratamentos realizada em janeiro de 2026, no Centro Hospitalar de Noma, a equipa médica atendeu sobretudo doentes com sequelas de Noma, bem como casos de fenda palatina, lábio leporino e queimaduras graves que exigem cirurgia plástica reconstrutiva.
O Noma é uma infeção gangrenosa grave que afeta principalmente crianças desnutridas na Guiné-Bissau e na região do Sahel, exigindo tratamento imediato. As causas da doença estão associadas à má higiene oral, desnutrição e condições precárias de higiene ambiental.
“O OBJETIVO É FORMAR TÉCNICOS GUINEENSES PARA ASSUMIREM ESTES CASOS” – CIRURGIÃO PLÁSTICO

Issa Ousmane Hamady, cirurgião plástico que lidera há cerca de dez anos missões médicas na Guiné-Bissau, explicou que a Organização Não Governamental alemã Hilfsaktion Noma dedica-se essencialmente ao tratamento de pacientes com sequelas de Noma. No entanto, no contexto guineense, a equipa também intervém em casos de fenda palatina, lábio leporino e queimaduras graves, que requerem cirurgia especializada.
Relativamente às medidas adotadas para pacientes com doenças transmissíveis, como o VIH-Sida e a tuberculose, o especialista esclareceu que, nas crianças, a doença de Noma está geralmente associada à falta de higiene oral e à má nutrição. Já nos adultos, muitos dos doentes com Noma são também portadores de VIH-Sida.
“As crianças com Noma e outras doenças associadas são primeiro tratadas clinicamente e recebem alimentação adequada, para que cheguem em boas condições físicas à cirurgia plástica de reconstrução facial”, explicou. Acrescentou que os pacientes com Noma associados ao VIH-Sida recebem igualmente tratamento antirretroviral e acompanhamento nutricional, garantindo condições clínicas favoráveis para a intervenção cirúrgica.
Sobre a distribuição de tarefas dentro da equipa, Hamady referiu que, em algumas missões, contam com a colaboração de especialistas alemães, sobretudo em cirurgias mais complexas, embora a equipa seja maioritariamente composta por profissionais nigerinos, com forte envolvimento de técnicos guineenses.
“O nosso grande objetivo é formar técnicos guineenses para que, no futuro, possam assumir estes casos de forma autónoma”, sublinhou. Segundo explicou, a missão desloca-se a Bissau duas vezes por ano, não só para realizar campanhas cirúrgicas, mas também para capacitar médicos e técnicos de saúde nacionais, alguns dos quais beneficiam atualmente de bolsas de formação de curta duração em Niamey, no Níger.
Durante esta campanha, realizada ao longo de uma semana, foram efetuadas 18 intervenções cirúrgicas, incluindo casos de Noma, queimaduras, fenda palatina e lábio leporino. Três dos pacientes operados eram provenientes do Senegal, tendo a equipa atendido igualmente doentes da Guiné‑Conacri e da Gâmbia.
O cirurgião aproveitou a ocasião para apelar aos pacientes com fenda palatina e lábio leporino a inscreverem‑se no Centro Hospitalar de Noma, de modo a beneficiarem de tratamento cirúrgico especializado e gratuito. Referiu ainda que, apesar da redução dos casos de Noma na Guiné-Bissau, o centro tem registado um aumento de pacientes provenientes de países vizinhos.
Para Hamady, é fundamental que as autoridades guineenses invistam na formação de médicos nacionais em especialidades como a cirurgia plástica, anestesiologia e instrumentação, para garantir uma resposta sustentável ao tratamento de Noma, fendas labiais e queimaduras graves.
DIRETOR DO CENTRO: “OIO É A REGIÃO COM MAIS CASOS DE NOMA; A ZONA INSULAR REGISTA MENOS OCORRÊNCIAS”

O diretor do Centro Hospitalar de Noma, Abduramane Nhabali, afirmou que, desde o início do seguimento da doença na Guiné-Bissau, a região de Oio tem liderado consistentemente os índices de prevalência. Segundo indicou, cerca de 99 por cento dos casos atendidos durante esta campanha provinham daquela região.
“Em 2024 registámos sete casos. Nos anos anteriores, os números eram mais elevados. Os casos de Noma têm vindo a reduzir de forma significativa ano após ano, o que representa um avanço importante na luta contra a doença na Guiné-Bissau”, afirmou.
Nhabali explicou que o rastreio é feito nas consultas regulares dos centros de saúde e através da atuação dos Agentes de Saúde Comunitários, formados para detetar precocemente os sinais da doença. Além de Oio, Bafatá e Gabú, onde os casos são mais frequentes, as restantes regiões registam menor incidência, sobretudo a zona insular.
“Há vários anos que não recebemos notificações de casos de Noma provenientes da zona insular. Mesmo nas missões de rastreio realizadas pela coordenação do Ministério da Saúde, nunca foi detetado um único caso nessas regiões”, assegurou.
Apesar da redução, o responsável alertou que a doença não pode ser considerada erradicada, uma vez que os fatores de risco continuam presentes em todo o território nacional.
Quanto ao seguimento pós-operatório, explicou que os doentes permanecem internados durante algum tempo após a cirurgia e, após a alta, são submetidos a controlos mensais até completarem seis meses de acompanhamento.
“O TRATAMENTO E A CIRURGIA DA DOENÇA DE NOMA SÃO GRATUITOS NA GUINÉ-BISSAU”
“O tratamento da doença de Noma é totalmente gratuito na Guiné-Bissau. O doente recebe consultas, medicamentos, alimentação, internamento, vestuário e produtos de higiene, todos assegurados pelo Centro de Noma”, destacou.
O diretor explicou ainda que, embora o centro tenha sido criado inicialmente para tratar exclusivamente a doença de Noma, passou a prestar assistência gratuita a outros problemas de saúde, como doenças da cavidade oral, sequelas de queimaduras, fendas labiais e palatinas.
Questionado sobre a possibilidade de o centro vir a funcionar exclusivamente com técnicos nacionais, Nhabali referiu que, ao longo dos anos, as campanhas cirúrgicas têm sido realizadas com o apoio de médicos estrangeiros, sobretudo do Níger e da Alemanha, acompanhadas sempre por ações de formação para os técnicos guineenses em áreas como anestesiologia, instrumentação, esterilização e preparação de materiais.
Refira-se que o primeiro Centro Antena de Noma foi criado na Guiné-Bissau em 2008. O atual Centro Hospitalar de Noma, localizado em frente ao Hospital Militar, foi inaugurado em 2016.
Por: Assana Sambú





















