Fanado e caju:  CERCA DE 200 MIL CRIANÇAS GUINEENSES FICARAM FORA DO SISTEMA DE ENSINO EM 2025

A Rede de Jovens Defensores e Promotores dos Direitos das Crianças nas Zonas Rurais (RJDPDCZR) alertou que, em 2025, cerca de 200 mil crianças guineenses ficaram fora do sistema de ensino, sobretudo devido à realização de rituais tradicionais de circuncisão (fanado) e à campanha de colheita e comercialização da castanha de caju.

Segundo a organização, cerca de 160 mil crianças abandonaram temporária ou definitivamente a escola para participar nos rituais de fanado, prática que leva muitos pais a retirarem os filhos das aulas durante o período letivo. A campanha do caju surge igualmente como um fator determinante, afetando principalmente as meninas, que são frequentemente afastadas da escola para apoiar atividades domésticas e económicas.

Os dados foram revelados pelo presidente da RJDPDCZR, Iacer Quintino Biamo, em entrevista ao jornal O Democrata, na qual abordou as consequências do abandono escolar e sublinhou que a interrupção da escolaridade por motivos culturais ou económicos constitui uma violação do direito fundamental à educação.

ATIVISTA DEFENDE DIÁLOGO PARA TRAVAR ABANDONO ESCOLAR

Perante o que classificou como uma situação preocupante, o ativista social apelou a um maior envolvimento dos líderes comunitários e religiosos, bem como das autoridades administrativas, para combater a realização do fanado em pleno período escolar. Alertou ainda para os impactos negativos desta prática no processo de aprendizagem e no desenvolvimento integral das crianças.

Iacer Biamo explicou que os dados, recolhidos com base em informações da UNICEF, refletem a elevada incidência de circuncisões em várias regiões do país, associada à campanha de comercialização da castanha de caju.

Defendeu que a escola deve ser encarada como um espaço de formação de cidadãos críticos e conscientes, advertindo que manter um número elevado de crianças fora do sistema educativo, por motivos tradicionais ou económicos, compromete a construção de uma sociedade saudável e sustentável.

O responsável apelou ao Governo para que assuma a responsabilidade de calendarizar as cerimónias tradicionais fora do período letivo, uma vez que a prática atual perturba gravemente o cumprimento do calendário escolar, sobretudo nas regiões mais vulneráveis, onde as crianças são privadas de direitos fundamentais.

“O abandono escolar constitui uma violação dos direitos das crianças. Retirá-las da escola para rituais tradicionais compromete o seu futuro, dificulta a inserção no mercado de trabalho e afeta negativamente a economia local e nacional”, afirmou.

Embora reconheça que a circuncisão é vista como um ritual de passagem em várias comunidades, Iacer Biamo sublinhou que a sua realização em tempo letivo conduz, muitas vezes, ao abandono escolar prolongado, defendendo um diálogo estruturado entre comunidades, líderes tradicionais e o sistema nacional de educação.

Destacou a região de Bafatá como uma das mais afetadas por esta prática durante o funcionamento das aulas, referindo que o fenómeno tem vindo a intensificar‑se nos últimos cinco anos, com impacto direto no normal funcionamento das escolas.

“As crianças abandonam a escola para permanecer dois ou três meses nas barracas de fanado, tempo que deveria ser dedicado à aprendizagem. Sem medidas urgentes e concertadas, corremos o risco de formar uma sociedade menos preparada”, alertou.

LIMITAÇÕES DA ORGANIZAÇÃO E FRAGILIDADES DO SISTEMA EDUCATIVO

O presidente da Rede explicou que a organização tem desenvolvido campanhas de sensibilização porta a porta, em Bissau e em algumas regiões do interior, dirigidas às comunidades e aos encarregados de educação. Apesar disso, os indicadores continuam a ser preocupantes.

Um dos principais desafios da RJDPDCZR, segundo afirmou, é a expansão das suas bases regionais e o reforço das ações de sensibilização, objetivo dificultado pela falta de financiamento.

“A organização existe há seis anos, mas não dispõe de parceiros nem de financiamentos regulares. Funciona com contribuições dos próprios membros, o que limita seriamente a continuidade das ações”, lamentou.

Iacer Quintino Biamo apontou ainda as carências das infraestruturas escolares, sobretudo nas zonas rurais, como um dos grandes fracassos do sistema educativo nacional.

“Nas zonas rurais, a educação está praticamente em agonia. Ainda existem escolas em ruínas ou construídas com ramos de palmeiras e quirintins, modelos arcaicos que persistem em pleno século XXI”, criticou.

Defendeu que as crianças das zonas rurais devem beneficiar dos mesmos direitos que as das zonas urbanas, lembrando que a Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos da Criança consagra o princípio da igualdade no acesso à educação, à saúde e a condições de vida dignas.

A Rede tem recebido denúncias frequentes de casamento forçado, mutilação genital feminina, violência física e sexual, bem como de abandono escolar associado ao fanado e à campanha do caju.

Entre os casos mais graves, o ativista referiu ocorrências nas regiões de Cacheu, Oio, Biombo e Quínara, envolvendo mortes de crianças em circunstâncias violentas ou trágicas.

Segundo avançou, em 2025, a RJDPDCZR registou 88 casos de violações dos direitos das crianças, incluindo agressões físicas e psicológicas, abuso sexual e abandono escolar.

Iacer Quintino Biamo acusou o Estado da Guiné‑Bissau de falta de posicionamento face às denúncias, considerando que a ausência de respostas eficazes contribui para a perpetuação destas práticas, sobretudo nas zonas rurais, onde muitos pais afirmam desconhecer os direitos das crianças.

Por: Natcha Mário M’bundé

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