O diretor clínico do Hospital Raoul Follereau, Nicandro Lopes Cá, apelou ao Governo para reforçar os meios materiais e investir na capacitação de recursos humanos, de modo a melhorar as condições críticas em que o centro funciona e aumentar a sua capacidade de resposta às demandas.
Em entrevista exclusiva ao Jornal O Democrata, por ocasião do Dia Mundial da Tuberculose, celebrado na terça-feira, 24 de março de 2026, o responsável afirmou que o hospital necessita de maior atenção, devido à precariedade dos serviços e das infraestruturas.
Segundo Nicandro Lopes Cá, essa precariedade “reflete-se diretamente na capacidade de atendimento”, sobretudo na época chuvosa, quando o telhado deixa infiltrar água, provocando alagamentos no interior do edifício.
A situação obriga a direção a reduzir, involuntariamente, o número de internamentos, uma vez que muitos quartos ficam desativados devido à entrada de água, diminuindo assim a capacidade de acolher pacientes.
A preocupação surge numa altura em que a Organização Mundial da Saúde (OMS) afirma que a tuberculose (TB) continua a ser a principal causa de morte por um único agente infeccioso no mundo, com cerca de 10,8 milhões de novos casos e 1,25 milhão de óbitos anuais.
Entre os casos de 2024, registaram-se 1.334 homens e 1.335 mulheres. Acrescentou que os dados de 2025 indicam um empate em termos de género, com 1.113 casos de homens e, a nível das mulheres, também 1.113 casos.
Quanto aos internamentos, tradicionalmente os homens ingressam mais do que as mulheres, devido ao consumo de tabaco e álcool. No entanto, segundo o diretor clínico, os números mais recentes mostram que as mulheres têm aumentado significativamente esses comportamentos, aproximando-se — e até ultrapassando — os homens.

“O Estado deve continuar a reforçar a capacidade do centro, colocado ao serviço da população de forma gratuita. Na época chuvosa, a capacidade de internamento diminui, a propagação aumenta e o número de doentes em tratamento cresce”, afirmou.
Nicandro Lopes Cá alertou ainda para o risco de a população inteira ser afetada, caso o centro continue a enfrentar essa “precariedade interminável”.
Quanto aos recursos humanos, afirmou que o Hospital Raoul Follereau precisa de técnicos “em quase todos os serviços”, devido ao aumento diário de casos, destacando que a situação deve ser tratada como “um problema nacional”.
O diretor clínico pediu também o reforço das ações de sensibilização comunitária, essenciais para reduzir o número de casos. Segundo ele, a erradicação da doença só será possível com a colaboração de toda a sociedade.
Entre os principais fatores de risco para a tuberculose, apontou a pobreza, a falta de alimentação adequada, o excesso de pessoas a dormirem no mesmo espaço, e o baixo nível de sensibilização, especialmente em zonas rurais.
Sobre o diagnóstico e prevenção, explicou que o hospital recorre aos órgãos de comunicação social para difundir informações, mas gostaria de expandir ações de sensibilização em todo o país. Isso, porém, não é possível devido à falta de meios financeiros, já que dependem cem por cento do Governo.
Os sintomas mais comuns da tuberculose incluem tosse persistente (principalmente à noite), febre, calor corporal elevado e perda de peso rápida. Esses sinais podem surgir ao longo de dias ou meses, e devem motivar exames imediatos.
O diretor clínico reconheceu que a adesão ao tratamento ainda é um desafio. O hospital oferece atendimento gratuito, acompanhado por psicólogos e assistentes sociais, que desempenham um papel importante na motivação dos pacientes.
Segundo estimativas globais, uma em cada quatro pessoas no mundo carrega a bactéria da tuberculose, embora nem todas desenvolvam a doença. Desde 2000, os esforços internacionais permitiram salvar cerca de 79 a 83 milhões de vidas.
A maioria dos casos concentra-se no Sudeste Asiático, África e Pacífico Ocidental, afetando sobretudo países de baixa e média renda.
Por: Jacimira Segunda Sia





















