Estudo de Impacto Ambiental e Social Simplificado (EIASS) do projeto da criação de uma rede de espinha dorsal de fibra ótica na Guiné-Bissau

CONTEXTO

Particularmente em países em desenvolvimento como a Guiné-Bissau, a criação de uma rede de espinha dorsal de fibra ótica robusta é um fator decisivo para o crescimento sustentável, a inclusão digital e o acesso a serviços de telecomunicações de alta qualidade. O Governo da Guiné-Bissau recebeu financiamento do Grupo Banco Mundial (BM) para implementar o Programa Regional de Integração Digital da África Ocidental (WARDIP-GB). Este programa tem em consideração a necessidade de a Guiné-Bissau desenvolver uma economia digital e integrar-se num mercado digital regional único e harmonizado, promovendo a inovação e a competitividade no mercado único digital regional. Espera-se que o projeto garanta o alcance das metas nacionais de desenvolvimento digital de forma mais eficiente, rápida e sustentável.

Atendendo a que a implementação das atividades do WARDIP-GB é suscetível de gerar impactos e efeitos diretos e/ou indiretos, positivos ou negativos, nos ambientes físico, biológico e socioeconómico, foi realizado o Estudo de Impacto Ambiental e Social Simplificado (EIASS) do projeto. Este estudo observa o quadro legal e regulamentar em vigor na Guiné-Bissau, nomeadamente a Lei de Bases do Ambiente n.º 1/2011, de 2 de março, a Lei n.º 10/2010 de Avaliação Ambiental, e o Quadro Ambiental e Social (QAS) do Banco Mundial, estruturado em dez (10) Normas Ambientais e Sociais (NAS).

O EIASS identifica os impactos do projeto nos ambientes biofísico, socioeconómico e humano, e define as disposições legais e regulamentares a implementar pelas partes interessadas, de modo a garantir que o projeto seja executado sem causar danos irreparáveis. O estudo abrange igualmente os efeitos sociais do projeto, com particular atenção as necessidades específicas de homens, mulheres e grupos vulneráveis, bem como às consequências para as populações afetadas.

Nos termos da legislação nacional aplicável, o presente resumo é publicado para conhecimento público, no: https://wardip.gw/relatorios/

link: https://wardip.gw/estudo-de-impacto-ambiental-e-social-simplificado-eiass-espinha-dorsal-nacional/

10 thoughts on “Estudo de Impacto Ambiental e Social Simplificado (EIASS) do projeto da criação de uma rede de espinha dorsal de fibra ótica na Guiné-Bissau

  1. A narrativa do coordenador do WARDIP sobre o backbone de fibra óptica deve ser desmontada sem cerimónias: vender isto como “a grande solução” para a transformação digital da Guiné-Bissau é tecnicamente pobre, institucionalmente perigoso e financeiramente discutível. O próprio anúncio publicado fala da “criação de uma rede de espinha dorsal de fibra ótica” como factor decisivo para crescimento, inclusão digital e serviços de telecomunicações de qualidade, mas isso é uma meia-verdade conveniente: fibra é infraestrutura passiva, não é transformação digital. Fibra enterrada não digitaliza serviços, não cria interoperabilidade, não organiza dados públicos, não monta identidade digital, não resolve cibersegurança, não cria governo electrónico e não corrige a ausência de arquitectura institucional.

    O mais grave é que o projecto aparece embrulhado numa linguagem de modernização, quando o próprio WARDIP/Banco Mundial define o backbone da Guiné-Bissau como um indicador físico medido em quilómetros, com meta de 830 km apenas até 2028, e ainda “usando uma abordagem MFD”, ou seja, mobilização de financiamento privado e lógica de mercado. Portanto, não estamos perante uma solução imediata para o Estado, nem perante uma rede pública operacional ao serviço das instituições hoje. Estamos perante uma obra pesada, lenta, cara, regulatória e ambientalmente sensível, cujo sucesso depende de governação, modelo grossista, acesso aberto, operadores, manutenção, energia, segurança física, regulação e capacidade de operação. Sem isso, vira monumento de fibra: bonito no discurso, inútil na prática.

    A pergunta séria é simples: qual problema concreto do Estado guineense este backbone resolve em 2026? As escolas continuam sem rede funcional. Os ministérios continuam sem interoperabilidade. Os serviços públicos continuam em papel, Excel, WhatsApp e improviso. O ITMA não dispõe ainda de uma arquitectura nacional de serviços digitais suficientemente consolidada. A nuvem nacional transitória, a rede do Estado, o registry, a troca de dados, o SOC/CERT/CII, a identidade digital e os serviços digitais prioritários exigem conectividade agora, não em 2028. Enterrar fibra como peça central, quando o Estado precisa primeiro de uma rede governamental operacional, híbrida, pragmática e escalável, é trocar prioridade por vitrina.

    Há ainda uma contradição estratégica: o próprio relatório de implementação do Banco Mundial de Março de 2026 indica que a componente regional de cabo submarino ainda está em processo conjunto de aquisição, com selecção prevista para Junho de 2026. Ou seja, está-se a vender a espinha dorsal nacional como se o ecossistema completo de conectividade internacional, redundância, governação e operação já estivesse maduro. Não está. Uma backbone nacional sem modelo claro de interligação internacional, sem preço grossista competitivo, sem operadores interessados, sem política séria de partilha de infraestrutura e sem garantia de acesso aberto transforma-se numa auto-estrada sem entradas, sem carros e sem portagens reguladas.

    Também não se deve ignorar que o próprio EIASS classifica o projecto como de risco substancial do ponto de vista ambiental e social. Isto não é uma pequena instalação técnica de escritório; é uma intervenção territorial, com impactos biofísicos, sociais e humanos que exigem mitigação, gestão, fiscalização e transparência. Portanto, tentar vender isto como uma “solução tecnológica limpa e evidente” é simplificação grosseira.

    A tecnologia certa para a Guiné-Bissau, neste momento, não é uma obsessão cega por backbone físico como se estivéssemos nos anos 2000. A prioridade devia ser uma arquitectura digital de Estado: rede governamental híbrida para Bissau e serviços essenciais; contratação inteligente de capacidade existente; ligações dedicadas para ministérios, escolas-piloto, justiça, finanças e administração pública; GovCloud transitória; interoperabilidade; camada de dados; cibersegurança; e serviços digitais concretos. Fibra nacional entra nessa arquitectura como componente, não como religião.

    Dito de forma directa: o coordenador está a tentar transformar um projecto de obra civil tecnológica numa narrativa de liderança digital. Mas liderança digital não é cavar valas. Liderança digital é alinhar tecnologia com serviços, instituições, dados, segurança, sustentabilidade financeira e resultados para o cidadão. Se depois de milhões gastos o país tiver quilómetros de fibra, mas continuar sem serviços públicos digitais funcionais, sem rede do Estado, sem interoperabilidade e sem capacidade operacional, então não houve transformação digital. Houve apenas mais uma obra cara com PowerPoint bonito e pouca substância.

    A crítica central deve ser : o backbone não é errado por existir; é errado como prioridade dominante, como narrativa salvadora e como substituto da arquitectura digital do Estado. Na fase actual da Guiné-Bissau, investir primeiro em soluções híbridas, rápidas, modulares e orientadas a serviços teria maior impacto do que apostar quase tudo numa infraestrutura pesada, lenta, vulnerável a captura institucional e sem garantias claras de utilização efectiva. É o velho vício: confundir desenvolvimento digital com obra, equipamento e anúncio público. A Guiné-Bissau não precisa de mais uma catedral tecnológica vazia. Precisa de Estado a funcionar.

    1. A crítica apresentada cria uma falsa oposição entre backbone de fibra óptica e transformação digital do Estado. Isso pode gerar confusão na opinião pública porque sugere, de forma deliberada, que a infraestrutura está a ser apresentada como solução isolada, quando o backbone é apenas uma das etapas de um programa mais amplo de modernização digital

      Nenhum projecto sério de transformação digital começa pela interoperabilidade, identidade digital ou serviços públicos online sem antes garantir conectividade, capacidade de rede, resiliência e infraestrutura de base. O backbone não substitui os serviços digitais; ele cria as condições técnicas para que esses serviços possam existir de forma segura, escalável e sustentável.
      O mais problemático na crítica é omitir deliberadamente que as fases seguintes do programa incluem precisamente aquilo que o autor afirma estar ausente: interoperabilidade institucional, identidade digital (eID), plataformas de serviços públicos digitais, integração de sistemas, governação de dados e modernização da administração pública. Ao ignorar essas componentes já previstas, a análise induz a ideia errada de que o projecto termina na instalação de fibra óptica, o que simplesmente não corresponde à realidade
      Também é incorreto insinuar que a existência de estudos ambientais e sociais enfraquece o projecto. Pelo contrário: grandes infraestruturas estratégicas exigem avaliações rigorosas precisamente para identificar impactos, definir medidas de mitigação e assegurar implementação responsável. Isso demonstra planeamento e conformidade internacional, não fragilidade.
      É legítimo discutir prioridades, modelos de implementação e velocidade de execução. O que não é intelectualmente honesto é reduzir um programa nacional de infraestrutura digital a “cavar valas” ou “obra sem visão”, ignorando deliberadamente o encadeamento lógico do projecto: infraestrutura → conectividade → interoperabilidade → identidade digital → serviços públicos digitais
      A verdadeira questão não é escolher entre backbone e transformação digital. A questão é compreender que um Estado moderno precisa das duas coisas: infraestrutura de base e serviços digitais funcionais. Separar artificialmente essas dimensões apenas empobrece o debate público e cria uma percepção errada sobre os objectivos reais do projecto
      Mas como és muito burro para perceber toda a cadeia, por isso foste despedido do WARDIP e agora andas com dor de cotovelo.

  2. Nota Técnica de Revisão Crítica

    Estudo de Impacto Ambiental e Social Simplificado do Backbone Nacional WARDIP — Guiné-Bissau

    A leitura técnica do EIASS revela um problema de fundo: o documento tenta validar uma opção de investimento já assumida, em vez de avaliar, com independência técnica, se essa opção é ambiental, social, económica, institucional e tecnologicamente adequada para a Guiné-Bissau. O resultado é um relatório pesado, formalmente extenso, mas tecnicamente frágil, com inconsistências internas, fundamentação insuficiente e uma análise de alternativas que não resiste a uma revisão séria.

    1. O estudo parte de uma conclusão e não de uma avaliação

    O EIASS afirma que o projecto é de “Risco Substancial” e que, por isso, exige avaliações ambientais e sociais apropriadas, incluindo a identificação de impactos directos, indirectos, cumulativos e induzidos, segundo a hierarquia de mitigação do Quadro Ambiental e Social do Banco Mundial. No entanto, a própria análise apresentada não acompanha esse nível de exigência. O documento reconhece o padrão, mas não entrega uma avaliação suficientemente robusta para o cumprir.

    A lógica do relatório é simples demais: sem projecto há atraso digital; com projecto há desenvolvimento. Isto não é análise ambiental e social. É defesa promocional do investimento. Um EIASS sério deveria perguntar: que tipo de conectividade, com que arquitectura, com que custo, com que sustentabilidade operacional, com que riscos de manutenção e com que capacidade institucional? Aqui, essas perguntas ficam praticamente esmagadas por uma narrativa linear a favor da fibra terrestre.

    2. A análise de alternativas é superficial e enviesada

    O relatório declara que analisou quatro variantes: “sem projecto/com projecto”, métodos de transmissão, métodos de implantação e métodos de construção. As opções consideradas incluem satélite, rádio, fibra terrestre, instalação aérea, instalação subterrânea, método manual e método mecanizado.

    Mas essa análise é fraca. Não há comparação séria de custo total de propriedade, sustentabilidade, tempo de implementação, capacidade de manutenção, risco de vandalismo, dependência energética, resiliência climática, procura efectiva, escalabilidade, modelo grossista, viabilidade financeira ou integração com infraestruturas já existentes. A opção de fibra terrestre aparece praticamente como vencedora por defeito.

    Num país com fragilidade institucional, baixa capacidade de manutenção, estradas vulneráveis, energia irregular e riscos elevados de execução, a análise deveria comparar cenários híbridos: fibra onde faz sentido, rádio onde é mais racional, satélite para redundância e cobertura de zonas remotas, e uso faseado de infraestruturas existentes. O estudo não faz isso com a profundidade exigível.

    3. Há inconsistências graves na descrição técnica do projecto

    O relatório apresenta números que não batem certo. Numa parte, a rede é apresentada em quatro fases com um total acumulado de 2.246 km. Noutra parte, refere 2.922 km de cabos de fibra. Também há divergência entre quatro fases e cinco fases, bem como entre centros de operação em Bissau e Mansoa versus referência posterior a Bissau e Bafatá.

    Isto não é detalhe menor. Num estudo ambiental e social, a extensão da rede, a localização dos nós, os centros técnicos, os corredores de passagem e as fases de execução determinam os impactos, os custos de mitigação, os riscos fundiários, os riscos sobre biodiversidade, as consultas necessárias e o orçamento do PGAS. Se a base técnica muda dentro do próprio documento, então a avaliação ambiental e social perde solidez.

    4. O estudo confunde extensão documental com qualidade analítica

    O documento tem centenas de páginas, listas, mapas, quadros, fotografias e anexos. Mas volume não é rigor. O índice mostra uma estrutura aparentemente completa — quadro legal, meio receptor, sensibilidade ambiental, alternativas, consultas, impactos, riscos, PGAS e mecanismo de reclamações — mas a organização formal não resolve as falhas de análise.

    Há muita descrição geral, mas pouca hierarquização dos riscos. Há muita enumeração normativa, mas pouca tradução em decisões operacionais. Há muitas medidas genéricas, mas pouca ligação directa entre cada risco, cada local, cada fase de obra, cada entidade responsável, cada custo e cada indicador de monitorização.

    5. A base de dados socioambiental parece frágil e desigual

    O estudo mistura dados de anos diferentes, como precipitação de 2024, temperatura de 2020 e população de 2013. Isto fragiliza a linha de base, sobretudo num projecto nacional com efeitos territoriais extensos. A própria lista de tabelas mostra essa dispersão temporal dos dados de referência.

    Num contexto de alterações climáticas, erosão, expansão urbana, pressão agrícola, mobilidade populacional e fragilidade dos serviços públicos, uma linha de base desactualizada ou fragmentada não chega. Serve para preencher relatório, não para orientar decisões de investimento.

    6. A consulta pública parece mais procedimental do que substantiva

    O documento inclui consultas públicas e anexos com fotografias e listas de presença. Mas a questão não é saber se houve reuniões. A questão é saber se as preocupações das comunidades, autoridades locais, operadores, regulador, entidades ambientais, municípios, donos de terras, mulheres, grupos vulneráveis e utilizadores finais foram realmente integradas na arquitectura do projecto.

    O próprio relatório remete para fotografias de reuniões institucionais e comunitárias em anexos, incluindo encontros em Janeiro e Fevereiro de 2025 e consultas em várias localidades. Mas não se vê, a partir da estrutura analisada, uma matriz forte de rastreabilidade: preocupação levantada, resposta técnica, alteração introduzida no projecto, entidade responsável, prazo e custo. Sem essa cadeia, a consulta vira ritual. Bonito para fotografia, fraco para governação.

    7. O PGAS corre o risco de ser uma lista genérica de boas intenções

    O relatório inclui PGAS, programa de seguimento, mecanismo de reclamações, custos de capacitação e orçamento global. Ainda assim, a grande fragilidade está na aparente genericidade das medidas. Um PGAS aceitável para um investimento deste tipo deveria ter medidas verificáveis por troço, por fase, por tipo de ecossistema, por risco fundiário, por obra, por empreiteiro e por entidade fiscalizadora.

    Sem essa granularidade, o PGAS transforma-se num anexo administrativo: existe, custa dinheiro, mas não governa a obra.

    8. O estudo não enfrenta a pergunta central: este backbone é a tecnologia certa, neste momento?

    Este é o ponto mais duro. O relatório aceita a narrativa de que uma grande espinha dorsal nacional em fibra é, por definição, desenvolvimento digital. Isso é uma simplificação perigosa. Infraestrutura não é transformação digital. Cabo enterrado não é serviço público digital. Fibra no mapa não é conectividade efectiva nas escolas, hospitais, administrações públicas, empresas e cidadãos.

    Num país sem capacidade operacional consolidada, sem modelo claro de manutenção, sem garantia de procura, sem governação institucional madura e com fraca execução financeira do próprio projecto, avançar para uma rede terrestre extensa sem uma análise robusta de sustentabilidade é transformar o WARDIP num projecto de obra pública, não num projecto de integração digital.

    9. Conclusão técnica

    A conclusão profissional é simples: o EIASS não deve ser aceite como base suficiente para validar a opção de investimento no backbone nacional tal como apresentada. Deve ser devolvido para revisão substancial.

    A revisão deve exigir:

    harmonização integral dos dados técnicos do projecto;
    clarificação da extensão real da rede, número de fases, nós e centros de operação;
    análise comparativa séria entre fibra, rádio, satélite e soluções híbridas;
    avaliação de custo total de propriedade e sustentabilidade operacional;
    linha de base socioambiental actualizada;
    matriz de consulta pública com rastreabilidade das respostas;
    PGAS detalhado por troço, fase, risco, custo, entidade e indicador;
    demonstração de capacidade institucional para operar, manter e fiscalizar a infraestrutura;
    reavaliação da coerência do investimento com as prioridades reais de transformação digital do Estado.

    Especialista do ITMA

    1. Concordo com o comentarista. e digo mais: se o WARDIP tem tanta confiança neste estudo, então que o coloque publicamente neste espaço, sem filtros, para que técnicos, operadores, ambientalistas, juristas, sociedade civil e cidadãos guineenses digam o que pensam. Porque isto não é uma obra privada de quintal. É dinheiro público, financiamento internacional e uma infraestrutura que, em teoria, devia servir o país inteiro.

      O mínimo exigível é transparência total. O estudo deve ser publicado, discutido e escrutinado. Não basta meter fotografias de consultas públicas, listas de presença e meia dúzia de quadros bonitos para fingir participação. A pergunta é simples: as pessoas foram ouvidas para valer, ou foram apenas chamadas para legitimar uma decisão já tomada?

      E aqui há um ponto politicamente sensível que o WARDIP não devia varrer para debaixo do tapete: a empresa ligada ao então Ministro José Carlos, que ganhou este concurso num processo altamente contestado, num contexto em que o Coordenador e Robert Djono, ex-colaborador da ARN, terão tido papel determinante na sua selecção, certamente terá muito a explicar. Não basta entregar um relatório grosso e esperar que todos batam palmas. Relatório pesado não é sinónimo de rigor técnico. Às vezes é só nevoeiro com capa institucional.

      Este EIASS, pelo que li, parece mais um documento para justificar o backbone do que uma avaliação séria sobre se este backbone é mesmo a melhor solução para a Guiné-Bissau neste momento. E essa diferença é enorme. Uma coisa é estudar alternativas. Outra é travestir uma decisão já tomada com linguagem ambiental, social e técnica.

      O país precisa de conectividade real, sim. Mas conectividade real não é desenhar quilómetros de fibra no papel, enterrar cabo, inaugurar postes e depois deixar escolas, hospitais, administrações e cidadãos na mesma. Transformação digital não se mede por extensão de cabo. Mede-se por serviços a funcionar, manutenção assegurada, custos sustentáveis, governação clara, capacidade institucional e impacto concreto na vida das pessoas.

      Por isso, o WARDIP devia publicar imediatamente o estudo, os anexos, a matriz de consultas, os dados técnicos, os custos, as alternativas analisadas e a fundamentação da escolha tecnológica. E devia aceitar o contraditório. Quem não deve, não teme.

      O problema é que, até agora, o que se vê é uma tutela politicamente frouxa, ministros acocorados perante a coordenação do projecto, mais preocupados em gerir conveniências, favores e equilíbrios pessoais do que em defender o interesse público. Em vez de exigirem transparência, rigor técnico e prestação de contas, comportam-se como se o WARDIP fosse uma quinta privada onde cada um tenta guardar o seu pedaço.

      Pior ainda: a manutenção do Coordenador, apesar dos sinais acumulados de má gestão, conflitos, fraca execução, concursos contestados e decisões tecnicamente duvidosas, já deixou de parecer simples distração política. Parece antes uma escolha consciente de protecção mútua. Quando ministros continuam a segurar uma coordenação fragilizada, sabendo que o projecto está atolado em suspeitas, atrasos e trapalhadas, a leitura pública é inevitável: há rabos presos, há interesses cruzados, há gente a tentar não mexer demasiado na lama para não sair salpicada.

      E é precisamente por isso que a publicação do estudo é tão importante. Porque o EIASS do backbone não é apenas um documento ambiental e social. É um teste à seriedade da governação do WARDIP. Se o estudo for sólido, que venha à praça pública. Se a escolha tecnológica for defensável, que seja defendida perante técnicos e cidadãos. Se o concurso foi limpo, que se mostrem os fundamentos. Agora, se tudo fica fechado, escondido, cozinhado entre meia dúzia de actores políticos e consultores bem tratados, então o problema já não é apenas técnico. É captura institucional.

      A Guiné-Bissau não precisa de ministros decorativos, nem de dirigentes que aparecem para a fotografia e desaparecem quando chega a hora de decidir. Precisa de tutela com coluna vertebral. Precisa de gente que diga ao Coordenador: “publique-se o estudo, expliquem-se os custos, justifique-se a tecnologia, mostrem-se as alternativas e responda-se ao país.”

      Sem isso, o backbone deixa de parecer uma infraestrutura nacional e passa a cheirar a mais uma negociata embrulhada em linguagem de transformação digital. E aí, meus senhores, já não estamos perante um simples problema de ambiente, impacto social ou engenharia. Estamos perante um problema sério de governação, responsabilidade política e higiene institucional.

      1. Há aqui uma confusão factual que convém esclarecer. O concurso altamente contestado não foi o EIASS em si, mas sim o Estudo de Viabilidade Técnica e Financeira para a realização do Backbone Nacional de Fibra Óptica.
        A acta oficial de avaliação técnica colocou a empresa Prospectiva, ligada ao então Ministro da tutela, José Carlos, em 2.º lugar. Mesmo assim, acabou por ganhar. E é precisamente aí que está o centro da suspeita.
        Mais grave: tanto o Coordenador do WARDIP como Robert Djono, responsável pela actividade e ex-colaborador da ARN, terão actuado de forma articulada para favorecer a empresa ligada ao ministro. Ou seja, não estamos perante uma simples divergência técnica. Estamos perante sinais sérios de manipulação institucional de um concurso público.
        Misturar este caso directamente com o EIASS cria ruído. O problema começou antes, na escolha do estudo base que passou a sustentar toda a narrativa técnica do backbone.
        Quando um estudo estratégico nasce já debaixo de suspeitas, avaliações contestadas, interesses políticos e decisões contrárias à própria acta de avaliação, tudo o que vem a seguir fica contaminado. A credibilidade técnica não cai do céu. Constrói-se com transparência, concorrência limpa e respeito pelas regras.
        Por isso a exigência mantém-se: publiquem os estudos, as actas, as matrizes, os fundamentos técnicos e deixem o país escrutinar. Porque esconder documentação só reforça a percepção de negociata institucionalizada.

        1. Se existem provas concretas de manipulação, favorecimento ou violação das regras de procurement no âmbito do projecto, o caminho adequado é apresentar formalmente essas evidências às entidades competentes, em vez de alimentar acusações públicas sem documentação verificável.

          O Banco Mundial dispõe de mecanismos específicos para recepção de denúncias relacionadas com concursos e procurement financiados pela instituição. As alegadas provas podem ser submetidas para análise através do endereço:

          [pprocurementcomplaints@worldbank.org](mailto:pprocurementcomplaints@worldbank.org)

          Importa igualmente recordar que o projecto está sujeito a vários níveis de controlo e supervisão, incluindo auditorias internas e externas independentes, além do acompanhamento regular do próprio Banco Mundial, com missões de supervisão periódicas realizadas de três em três meses.

          Caso existam elementos factuais sólidos — actas, comunicações, avaliações técnicas, decisões contraditórias ou qualquer evidência documental — esses elementos devem ser apresentados nos canais oficiais para investigação adequada. É precisamente para isso que existem mecanismos internacionais de compliance, transparência e escrutínio institucional.

    2. O EIASS não foi concebido para substituir estudos de viabilidade técnica, financeira, jurídica e estratégica. O seu objectivo é avaliar impactos ambientais e sociais da infraestrutura proposta, identificar riscos, definir medidas de mitigação e assegurar conformidade regulatória e internacional. Exigir que o EIASS responda isoladamente a todas as questões de arquitectura digital, sustentabilidade financeira, estratégia nacional de interoperabilidade ou política tecnológica é metodologicamente incorrecto.
      Isso não significa que essas questões sejam irrelevantes. Significa apenas que elas pertencem a instrumentos diferentes do ciclo de planeamento do projecto. Confundir deliberadamente essas camadas cria a falsa impressão de que o projecto não possui fundamentação técnica ou estratégica, quando o EIASS nunca teve essa função.

  3. Li os comentários publicados neste espaço e, sinceramente, há coisas que não devem passar como se fossem normais. discutir um projcto público é legítimo. questionar estudos, custos, prioridades, concursos, modelos de implementação e sustentabilidade também é legítimo. Aliás, quando estão em causa recursos públicos, fnanciamento internacional e infraestruturas estratégicas, o escrutínio não é apenas legítimo: é necessário. o que não é aceitável é transformar uma discussão técnica em ataques pessoais, insultos e tentativas de descredibilização. Isso não esclarece ninguém. Só empobrece o debate. também é grave a eventual utilização do nome de terceiros para publicar comentários ofensivos ou atribuir-lhes posições que não assumiram. A liberdade de expressão não dá direito a falsificar autoria, manipular identidades ou colar alguém a insultos e acusações pessoais. Isso já não é opinião. É abuso.Num Estado de Direito, a crítica responde-se com factos,com documentos,com estudos,com actas,com custos e com decisões fundamentadas. não com frases feitas, nem com ataques à vida profissional de quem quer que seja. a questão de fundo não é se a Guiné-Bissau precisa ou não de conectividade. Precisa, claro que precisa. nenhum país constrói seus serviços digitais sérios sem rede, sem capacidade técnica, sem segurança e sem infraestrutura de base. Mas isso não significa aceitar qualquer projecto de backbone sem discussão séria. A pergunta não é “backbone sim ou não”. a pergunta é, que backbone? Com que estudo? Com que custo? Escolhido como? Com que modelo de exploração? Mantido por quem? Integrado em que arquitectura digital do Estado? E com que benefício real para os cidadãos? É aí que deve estar o debate.um programa de transformação digital não se resume a instalar fibra óptica. A infraestrutura é importante, mas tem de estar ligada à interoperabilidade, à identidade digital, aos serviços públicos digitais, à protecção de dados, à cibersegurança, à governação institucional e à capacidade real de operar e manter os sistemas. Se essas ligações não forem claras, a crítica é mais do que legítima. É necessária. Por isso, tentar reduzir esta discussão a uma oposição artificial entre backbone e transformação digital é fugir ao essencial. Ninguém sério está a dizer que a infraestrutura não conta. O que se está a perguntar é se este projecto, nestas condições, com estes estudos, com esta governação e com este nível de transparência, serve de facto o interesse público. essa pergunta não deve incomodar ninguém que esteja de boa-fé. num Estado de Direito, ninguém está acima do escrutínio. nem coordenadores de projecto, nem consultores, nem empresas contratadas, nem autoridades públicas, nem entidades financiadoras. qundo se gere dinheiro público ou financiamento internacional, há uma obrigação acrescida de transparência e prestação de contas. quem tem argumentos apresenta-os, quem tem documentos publica-os, quem tem estudos sólidos não precisa esconder-se atrás de insultos, quem tem razão não precisa usar nomes alheios nem atacar pessoas. O debat deve voltar ao lugar certo: os documentos, os estudos, as actas, os custos, as alternativas analisadas, os impactos identificados, as medidas de mitigação, o modelo de sustentabilidade e a governação do projecto. O resto é só barulho. na Guiné-Bissau já temos barulho demais. O que está a faltar são instituições sérias, decisões transparentes, projectos bem preparados e sobretudo respeito pela lei.

  4. Muito paleio para disfarçar o óbvio: você não quer debate nenhum, quer criar ruído e fait-divers. Quem quer respostas sérias procura as entidades competentes. O seu plano é desacreditar o país e sabotar um projeto nacional, por pura frustração de ter sido despedido por incompetência e preguiça. O interesse público defende-se com trabalho, não com dor de cotovelo.
    ​Essa tática de jogar guineenses contra guineenses já nós conhecemos bem desde a época colonial. Rejeitamos categoricamente que venham de fora tentar dividir irmãos. No final, vai perceber que não há povo mais resiliente do que o da Guiné-Bissau

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