O comentador desportivo guineense Camnate Domingos Binhafa apelou aos clubes de futebol para convocarem uma assembleia extraordinária da Federação de Futebol da Guiné-Bissau (FFGB), com o objetivo de esclarecer as suspeitas de corrupção que envolvem o organismo responsável pela gestão do futebol nacional.
A FFGB enfrenta uma crise desde maio último, após o Ministério Público (MP) ter aplicado medidas de coação ao presidente da Federação, Carlos Mendes Teixeira, conhecido por “Caíto”, e ao vice-presidente, Celestino Gonçalves, “Tinex”, no âmbito de uma investigação sobre o alegado desvio de fundos públicos avaliados em 183 milhões de francos CFA, ocorrido em 2023.
Dois meses depois, o Supremo Tribunal de Justiça (STJ), reunido em plenário, declarou por unanimidade a inconstitucionalidade das medidas de coação aplicadas pelo MP aos dois dirigentes.
Convidado pelo jornal O Democrata para analisar a situação na FFGB, Binhafa recordou que a convocação de uma assembleia extraordinária não teria necessariamente como finalidade destituir o presidente da instituição, mas permitir aos membros obter esclarecimentos sobre a sua gestão.
“Os clubes podiam agir, não apenas provocando um congresso, que não significa destituir o presidente da FFGB. Podiam convocar um congresso para que o presidente da Federação tivesse a oportunidade de esclarecer as suspeitas que existem dentro da instituição, explicando efetivamente como está a ser gerida. Esse devia ser o papel dos clubes, para saberem, na realidade, onde está o problema”, afirmou Binhafa, em entrevista concedida ao O Democrata na terça-feira, 11 de agosto.
Relativamente à atuação do Governo, o comentador lembrou que a Federação Internacional de Futebol Associado (FIFA) não permite a interferência das autoridades políticas nos assuntos internos das federações nacionais. Ainda assim, considerou que o Executivo pode solicitar informações ao Ministério Público sobre o andamento das investigações relacionadas com as suspeitas na FFGB, de forma a acompanhar a situação.
Binhafa defendeu igualmente que o Governo pode optar por não intervir diretamente e permitir que as instâncias judiciais prossigam com o processo, para apurar a veracidade das suspeitas ligadas ao alegado desvio dos 183 milhões de francos CFA.
Na sequência deste caso, o Ministério Público ordenou, na semana passada, à Polícia Judiciária (PJ) a detenção provisória de Carlos Mendes Teixeira, por alegada violação das medidas de coação que lhe tinham sido impostas. A informação consta de um ofício assinado por três magistrados do MP, datado de 31 de julho.
Segundo o documento, Mendes Teixeira terá viajado para os Estados Unidos da América (EUA), no dia 16 de julho de 2026, sem autorização prévia do órgão titular da ação penal, para assistir à final do Campeonato do Mundo de Futebol de 2026, incumprindo, alegadamente, os deveres estabelecidos no âmbito do processo.
No entanto, uma fonte próxima da FFGB revelou ao O Democrata que o dirigente apresentou, através dos seus advogados, nos dias 13 e 14 de julho, um requerimento ao Ministério Público a informar sobre a deslocação, conforme consta do bilhete de viagem emitido pela FIFA.
Conhecidos no meio desportivo guineense como “Caíto” e “Tinex”, os dois dirigentes continuam sob investigação do Ministério Público por suspeitas de envolvimento no alegado desvio de 183 milhões de francos CFA pertencentes à FFGB.
De acordo com as informações disponíveis, o montante terá sido disponibilizado pelo Estado guineense para o fretamento de uma aeronave destinada ao transporte da seleção de São Tomé e Príncipe, no âmbito de um jogo do Grupo A da fase de qualificação para a Taça das Nações Africanas (CAN) de 2023, disputado na Costa do Marfim.
A partida realizou-se em Bissau devido à interdição do Estádio Nacional de São Tomé e Príncipe pela Confederação Africana de Futebol (CAF).
O processo chegou a ser arquivado por alegada insuficiência de provas, mas foi reaberto em março deste ano, após o surgimento de novos elementos probatórios apresentados ao Ministério Público pela Polícia Judiciária da Guiné-Bissau, em colaboração com a Interpol.
Por: Alison Cabral


















