MIGRAÇÃO CLANDESTINA CONTINUA A SEDUZIR JOVENS DE TENDINTO APESAR DOS RISCOS QUE ENFRENTAM

A aldeia de Tendinto, localizada a 11 quilómetros da secção de Cambadju, no setor de Contubuel, região de Bafatá, é composta por quatro grandes “moransas” habitadas maioritariamente por membros da etnia mandinga.

Segundo a tradição local, a aldeia foi fundada por um caçador proveniente de Sucutó, que terá decidido fixar-se naquela zona após uma visão considerada marcante pelos habitantes. Ao longo dos anos, a comunidade desenvolveu-se e consolidou uma extensa linhagem familiar.

Atualmente, a caça é uma atividade pouco praticada. A população dedica-se sobretudo à agricultura e à criação de gado. As principais culturas produzidas são a mancara, o milho preto e o arroz. Grande parte da produção é adquirida pelos comerciantes senegaleses. Cada saco de mancara é vendido por cerca de 20 mil francos CFA, embora o preço varie de acordo com a procura. Os comerciantes de Djabicunda também estão entre os principais compradores da produção agrícola local.

Semanalmente, homens e mulheres transportam os seus produtos para a feira popular “Lumo” de Cambadju, realizada todos os sábados. Já a participação dos habitantes de Tendinto na feira de Djabicunda é reduzida, devido à distância entre as duas localidades.

ENSINO CORÂNICO CONTINUA A SER UMA MARCA FORTE NA COMUNIDADE

O transporte entre as tabancas é feito sobretudo por motorizadas. Embora as estradas tenham sido recentemente melhoradas, alguns troços continuam degradados e repletos de buracos.

Tendinto é uma das zonas remotas do país onde a população fala pouco o crioulo. A comunidade preserva uma forte identidade cultural mandinga, influenciada também pela proximidade com o Senegal, localizado a cerca de 15 quilómetros da aldeia.

Tradicionalmente, a localidade integra o regulado de Canhabna. A aldeia possui um número significativo de emigrantes na diáspora europeia, que têm contribuído para o desenvolvimento da comunidade através da Associação de Filhos e Amigos de Tendinto, “Sankola Nhatota”. A organização tem apoiado a construção e reabilitação de mesquitas, escolas, furos de água e infraestruturas de saúde.

Apesar desse apoio, os moradores das comunidades circundantes sentem-se abandonados pelo Estado guineense. Queixam-se da escassez de serviços públicos, da falta de iluminação pública, da inexistência de um posto policial e das limitações no acesso aos cuidados de saúde.

Tendinto dispõe de uma escola primária com apenas duas salas de aula, que funciona do pré-escolar à 4.ª classe. A instituição conta com quatro professores, complementando o seu funcionamento através de contribuições mensais dos encarregados de educação, que variam entre 250 e 500 francos CFA.

A aldeia possui mais escolas corânicas, conhecidas como “madraças”, do que estabelecimentos de ensino público. Jornal O Democrata apurou que a criação dessas escolas resultou de uma estratégia comunitária para reduzir o envio de crianças para o Senegal e a Gâmbia em busca de formação religiosa.

Nestes dois países têm sido frequentes os relatos sobre crianças submetidas à mendicidade e a maus-tratos. Na comunidade, considera-se importante que as crianças frequentem o ensino corânico para adquirirem reconhecimento social. Atualmente, Tendinto recebe também crianças provenientes de outras regiões do país, sobretudo de Quinará, para estudar o Alcorão.

A aldeia não possui esquadra policial. Assim, os conflitos e problemas locais são geralmente resolvidos pelo chefe da tabanca ou pelas autoridades de Cambadju.

Tendinto é igualmente conhecida pelo elevado número de emigrantes. Segundo relatos recolhidos no terreno, muitos habitantes optaram por percursos migratórios irregulares.

Fontes locais afirmam existirem indícios de redes de migração clandestina que ligam a Guiné-Bissau, o Senegal e a Gâmbia aos países europeus. Os entrevistados alegam que a frequência dessas viagens levanta suspeitas sobre a eventual conivência de alguns intervenientes ao longo do percurso.

Segundo os relatos recolhidos, intermediários realizam ações de mobilização junto das comunidades para recrutar candidatos à migração.

As rotas mais utilizadas passam pela Líbia ou por Marrocos, antes da travessia para a Europa através de Espanha, nomeadamente pelas cidades autónomas de Ceuta e Melilla, situadas na costa norte de África.

O custo da viagem varia em função da procura e das negociações com os intermediários. Os valores situam-se geralmente entre 500 mil e 700 mil francos CFA. Não existe um calendário fixo para as partidas, devido ao controlo rigoroso exercido pelas autoridades marroquinas e espanholas.

Relativamente à campanha de comercialização da castanha de caju, os habitantes relataram que existe apenas um comprador na comunidade e que a sua capacidade de aquisição é insuficiente face à produção local.

Esta situação leva muitos produtores a transportar a castanha para o Senegal, onde os preços praticados são semelhantes aos registados na Guiné-Bissau, variando entre 450 e 600 francos CFA por quilograma. Contudo, esta opção implica despesas adicionais de transporte para os agricultores.

CERTIFICADO CORÂNICO CONTINUA A LEVAR CRIANÇAS PARA O SENEGAL E A GÂMBIA

Interpelado pela equipa de O Democrata, o secretário da Associação de Filhos e Amigos de Tendinto, Malam Turé, explicou que a organização tem apoiado a comunidade na construção de escolas e mesquitas, além de fornecer materiais ao centro de saúde.

Segundo o responsável, uma das prioridades atuais da associação é garantir o funcionamento do laboratório do centro de saúde local.

Malam Turé manifestou preocupação com a situação da escola pública, referindo que o estabelecimento não reúne condições para funcionar adequadamente durante a época das chuvas. Acrescentou ainda que a limitada capacidade das infraestruturas impede o acolhimento de todas as crianças, deixando muitas fora do sistema de ensino.

Neste sentido, apelou ao Estado para investir na construção de mais escolas públicas. Denunciou igualmente que, durante a campanha de apanha da castanha de caju, a frequência escolar tende a diminuir consideravelmente.

Afirmou que os professores têm alertado repetidamente para esta situação e que a associação tem promovido ações de sensibilização junto dos pais e encarregados de educação para combater a prática.

Questionado sobre o envio de crianças para o Senegal e a Gâmbia, afirmou que, apesar de a comunidade possuir mais de quatro escolas corânicas, o fenómeno continua a persistir.

“Basta ter um familiar ou conhecido nesses países para que as crianças sejam enviadas. Alguns pais continuam a acreditar que o ensino corânico no estrangeiro é melhor. Dizem que a escola da Guiné não é boa. Se quiseres que o teu filho tenha uma boa educação, tens de enviá-lo para o Senegal ou para a Gâmbia. Para o ensino público, enviamos as crianças para Bafatá e Bissau, mas isso é muito raro”, lamentou.

Sobre os relatos de maus-tratos a crianças submetidas à mendicidade, afirmou que poucas denúncias chegam à comunidade, uma vez que muitos pais enviam regularmente dinheiro para sustentar os filhos.

“Talvez essa situação aconteça com as crianças que não vivem com familiares e cujos pais não enviam dinheiro para o seu sustento”, frisou.

O líder juvenil admitiu que a migração clandestina continua a ser frequente na comunidade, embora tenha recusado todas as propostas que recebeu para seguir essa via.

“Mesmo conhecendo os muitos casos de mortes associadas à migração clandestina, há pessoas que acreditam que esta é a melhor forma de mudar de vida. Se algum dia emigrar, será por via legal. Dizer que, se morrer, foi destino de Deus é um falso argumento. Todos temos de reconhecer que esta não é uma boa opção”, criticou.

COMUNIDADE DENUNCIA DISCRIMINAÇÃO NO ACESSO AO REGISTO CIVIL DEVIDO À BARREIRA LINGUÍSTICA

O representante do chefe de tabanca, Sidi Dabó, denunciou que a comunidade continua privada de vários serviços essenciais, apesar dos esforços realizados pelos filhos e amigos da aldeia.

“Não temos acesso a muitos serviços do Estado, sobretudo aos serviços de identificação e registo civil. Estamos numa zona remota, junto à fronteira com o Senegal. Muitas vezes as pessoas recorrem ao registo senegalês”, revelou.

Sidi Dabó denunciou ainda alegados casos de discriminação por parte de funcionários do registo civil devido às dificuldades de alguns habitantes em expressarem-se corretamente em crioulo.

“Percorremos longas distâncias para fazer o registo. Muitas vezes negam-nos esse direito e alegam que não somos cidadãos nacionais por não nos expressarmos corretamente em crioulo. Essa situação leva muitas pessoas a recorrer aos serviços do Senegal”, afirmou.

Segundo explicou, a criação das escolas corânicas na comunidade surgiu precisamente para reduzir a saída precoce de crianças.

“Decidimos incentivar a criação de escolas corânicas aqui na aldeia para evitar que as nossas crianças passem pelas dificuldades enfrentadas por muitas outras no estrangeiro. Recebemos informações de crianças obrigadas a pedir esmola e sujeitas a maus-tratos. Quando estudam aqui, permanecem junto das famílias. Mais tarde, quando estiverem mais maduras e instruídas, poderão sair da comunidade”, disse.

“Atualmente, recebemos crianças de outras localidades do país, sobretudo da região de Quinará, para frequentar o ensino corânico. Contudo, continuamos a enviar algumas crianças para obter certificados do ensino corânico”, afirmou.

Sidi Dabó destacou igualmente as dificuldades enfrentadas pelos produtores durante a campanha de comercialização da castanha de caju.

Segundo explicou, a comunidade dispõe de apenas um posto de compra, cuja capacidade é insuficiente para absorver toda a produção local. Como resultado, muitos agricultores optam por vender a castanha no Senegal.

Não temos comerciantes com capacidade financeira para comprar toda a nossa produção. Temos apenas um posto de compra. Por isso, vendemos a castanha também no Senegal. Os preços variam entre 450 e 600 francos CFA por quilograma. Vendemos a castanha aos comerciantes senegaleses e compramos deles produtos de primeira necessidade na feira de Cambadju”, notou.

Segundo o líder comunitário, os conflitos entre agricultores e criadores de gado são frequentes. Nos últimos tempos, os criadores têm utilizado a bolanha de Bambadinca como zona de pastagem, situação que tem gerado tensões com os criadores locais.

GRÁVIDAS BENEFICIAM MENSALMENTE DE SERVIÇOS DE ECOGRAFIA DA BRIGADA MÓVEL DE SAÚDE

A área sanitária de Tendinto, que cobre 14 aldeias, dispõe de quatro enfermeiros técnicos, uma parteira, duas higienistas e 17 agentes de saúde comunitária. Existe apenas um centro de saúde do Tipo C, localizado na aldeia de Tendinto, próximo da fronteira com o Senegal.

As três áreas sanitárias do setor de Contubuel localizam-se na faixa fronteiriça com o Senegal: Cambadju, Tendinto e Sare-Bacar.

Apesar da ausência de alguns serviços, nomeadamente de um laboratório devidamente equipado, o centro de saúde dispõe de ambulância, água potável, eletricidade, acesso à internet e residência para os técnicos.

As consultas são gratuitas para crianças dos zero aos cinco anos e para pessoas com mais de 60 anos. Para os restantes utentes, custam entre 250 e 500 francos CFA durante a manhã e entre 500 e 1.000 francos CFA no período da tarde.

Para reduzir a pressão sobre o Hospital Regional de Bafatá, uma equipa móvel da região sanitária desloca-se mensalmente às localidades fronteiriças para realizar ecografias e outras intervenções. Em situações de emergência, os pacientes são evacuados para Bafatá, sendo os custos de combustível suportados pelas famílias.

Atualmente, a associação comunitária está a apoiar a construção de mais um pavilhão e mobiliza recursos para equipar o laboratório e reforçar os serviços de ecografia.

Por sua vez, a enfermeira Pauleta Silva Djú, colocada há dois anos no Centro de Saúde de Tendinto, afirmou que a comunidade procura os serviços de saúde, mas alertou para a persistência dos partos domiciliários.

“Muitas mulheres fazem consultas pré-natais, mas insistem em ter os partos em casa. Só procuram assistência técnica quando surgem complicações. É preocupante”, disse.

Segundo a enfermeira, os técnicos continuam a sensibilizar as famílias para os riscos associados à prática.

“Acredito que, aos poucos, os hábitos vão mudar. Um dos fatores que contribuem para os partos em casa pode estar relacionado com a falta de meios de transporte e com as longas distâncias até aos centros de saúde”, explicou.

A profissional reconheceu ainda que as limitações de equipamentos e de condições de trabalho levam muitos habitantes a procurar assistência médica no Senegal.

“Muitos guineenses preferem ser atendidos no Senegal, em melhores condições, devido às limitações existentes nos centros de saúde nacionais”, afirmou.

Sobre o VIH/Sida, Pauleta Silva Djú indicou que as pessoas diagnosticadas e acompanhadas pelo serviço têm mantido os tratamentos de forma regular.

Questionada sobre a adaptação à comunidade, afirmou que, apesar do isolamento, já se habituou à realidade local. Destacou ainda que Tendintoapresenta condições básicas que nem sempre existem noutras zonas remotas do país, nomeadamente eletricidade, água e acesso à internet.

No âmbito do reforço do sistema nacional de saúde e da redução da mortalidade materna na Guiné-Bissau, o Fundo das Nações Unidas para a População (UNFPA) desenvolveu uma intervenção dirigida às regiões com maiores indicadores de vulnerabilidade em saúde reprodutiva.

A organização instalou igualmente internet via satélite Starlink em várias maternidades remotas do país, incluindo a de Tendinto. Numa primeira fase, a intervenção incluiu o destacamento e colocação de técnicos especializados em saúde materna para reforçar a capacidade de resposta nos serviços locais.

Por: Epifânia Mendonça

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