Atual direção da FFGB quer “perpetuar-se” no poder com novo projeto de estatutos, acusa comentador

O jurista e comentador desportivo Camnate Domingos Binhafa afirmou que a atual Direção Executiva da Federação de Futebol da Guiné-Bissau (FFGB), liderada por Carlos Mendes Teixeira, conhecido por “Caíto”, pretende “perpetuar-se” no poder através da adoção do novo projeto de estatutos da instituição, que será debatido durante o Congresso Ordinário marcado para este sábado.

Entre as principais alterações previstas no documento, consultado pelo jornal O Democrata, destaca-se a revisão das regras para a eleição do presidente da FFGB. De acordo com a proposta, constante do artigo 32.º, cada lista candidata deverá ser subscrita por, pelo menos, oito membros da federação, incluindo duas associações desportivas e seis clubes.

Convidado por O Democrata a analisar o projeto, Camnate Domingos Binhafa considerou que, faltando apenas dois anos para a realização do Congresso Eletivo da instituição que rege o futebol nacional, não existe uma justificação plausível para proceder à alteração dos estatutos nesta fase.

“A intenção de alterar os estatutos é preparar um caminho para a perpetuação no poder dentro da Federação. Isso torna-se evidente nas alterações propostas, sobretudo nas disposições ligadas ao processo eleitoral. Existe uma intenção de preservar o poder por um período que poderá beneficiar a atual liderança da FFGB, mas não necessariamente o desenvolvimento do futebol nacional”, afirmou.

O comentador sustenta que a direção poderia aguardar pelo fim do atual mandato para apresentar uma proposta de revisão estatutária mais abrangente e consensual.

“Nada justifica alterar os estatutos neste momento, quando a Federação realizará eleições dentro de dois anos. A atual direção poderia esperar e preparar uma proposta mais adequada após o término do mandato. Por isso, questionamos a real motivação desta iniciativa, embora seja possível perceber o que poderá estar por detrás dela”, declarou durante uma entrevista concedida em Bissau, no dia 20 de agosto.

Segundo Binhafa, a principal finalidade da revisão estatutária seria criar mecanismos que permitam à atual liderança manter-se à frente da instituição, recorrendo a instrumentos legalmente estabelecidos para consolidar a sua posição.

O jurista entende ainda que o novo projeto poderá levantar dúvidas quanto à transparência e à previsibilidade do processo eleitoral, além de restringir a concorrência e limitar o exercício da democracia interna na federação.

“Quando se exige que cada candidato à presidência da FFGB obtenha o apoio de duas associações desportivas e seis clubes, está-se a tornar mais difícil o acesso à candidatura. A questão que se coloca é saber qual a razão para endurecer essas regras, quando o objetivo deve ser incentivar a participação, a concorrência de ideias e a apresentação de novos projetos para o futebol nacional”, argumentou.

Na sua perspetiva, caso o documento seja aprovado pelos associados da FFGB, o universo de candidatos à presidência da federação poderá ficar significativamente reduzido, uma vez que o número de associações desportivas é limitado.

“Se esta proposta for aprovada, dificilmente haverá mais de três candidatos à presidência da FFGB. A Guiné-Bissau conta apenas com seis associações desportivas e cada uma não poderá subscrever mais do que uma candidatura. Esta é uma barreira que está a ser criada e que poderá impedir o aparecimento de dirigentes com projetos relevantes para o desenvolvimento do futebol nacional”, sublinhou.

Perante este cenário, o comentador desportivo apelou aos associados da federação, especialmente aos clubes, para analisarem cuidadosamente o conteúdo e as implicações das alterações propostas.

“Cabe aos clubes analisar este projeto com profundidade e verificar se ele serve efetivamente os interesses do futebol nacional. É importante compreender o conteúdo da proposta e avaliar o seu alcance antes de qualquer decisão”, defendeu.

Binhafa apelou igualmente à responsabilidade e à autonomia dos membros da federação durante o processo de apreciação do documento.

“É necessária muita responsabilidade e serenidade para que cada clube analise a proposta de forma independente, tendo em conta não apenas os seus interesses imediatos, mas também as orientações do futebol nacional e internacional”, alertou.

O Congresso Ordinário da FFGB realiza-se este sábado, 22 de agosto, em Canafistra, nos arredores de Bissau, e deverá reunir 38 clubes e seis associações desportivas.

Segundo informações recolhidas por O Democrata junto de uma fonte federativa, além da proposta de revisão dos estatutos, os associados irão analisar o Relatório de Auditoria às Demonstrações Financeiras referente ao exercício de 2025.

De acordo com o documento consultado pelo jornal, a FFGB registou um resultado líquido negativo de 105.868.643 francos CFA no período compreendido entre 1 de janeiro e 31 de dezembro de 2025.

Paralelamente, a federação continua a ser alvo de uma investigação relacionada com o alegado desvio de 183 milhões de francos CFA em fundos públicos ocorrido em 2023.

Segundo informações disponíveis, o montante teria sido disponibilizado pelo Estado guineense para o fretamento de uma aeronave destinada ao transporte da seleção de São Tomé e Príncipe, no âmbito de um encontro do Grupo A das eliminatórias para a Taça das Nações Africanas (CAN) de 2023.

O jogo foi realizado em Bissau devido à interdição do Estádio Nacional de São Tomé e Príncipe pela Confederação Africana de Futebol (CAF).

Por: Alison Cabral

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