No setor de Xitole: FAMÍLIAS RECORREM ÀS ESCOLAS CORÂNICAS PERANTE DIFICULDADES DO ENSINO PÚBLICO

Na aldeia de Cambessé, localizada a oito quilómetros do setor de Xitole, na região de Bafatá, leste do país, uma zona com grande potencial para a produção de óleo de palma, cultivo de milho preto e arroz, bem como para a criação de gado, a população enfrenta diversos desafios. Além de sofrer os efeitos da seca, muitos pais e encarregados de educação optam por enviar os filhos para escolas corânicas no Senegal, em detrimento do ensino público.

Segundo informações recolhidas no local, pela reportagem do jornal O Democrata, a aldeia tem cerca de 1.300 habitantes, mas carece de escolas adequadas e de acesso à água potável, o que dificulta significativamente o quotidiano da população.

A aldeia dispõe apenas de um posto de saúde de base, sendo que os técnicos de saúde apenas aparecem durante campanhas de vacinação ou de distribuição de mosquiteiros impregnados. Não há profissionais de saúde residentes nem médicos. Em situações de urgência, os habitantes deslocam-se até Xitole, situado a oito quilómetros de Cambessé.

O transporte constitui igualmente um problema. As deslocações são feitas sobretudo em motorizadas ou bicicletas. Quem não dispõe desses meios de transporte paga cerca de 500 francos CFA para se deslocar.

No que diz respeito à segurança, a aldeia não possui posto nem esquadra policial. Os moradores denunciam frequentes casos de roubo de gado bovino, ovino e de motorizadas.

Devido à escassez de água, as mulheres apenas conseguem praticar atividades hortícolas durante a época das chuvas. Como alternativa de subsistência, dedicam-se principalmente à extração de óleo de palma, à produção de sabão e ao cultivo de mancara.

A aldeia de Sintchã Arafam, povoação situada em Cambessé, dispõe da Escola de Ensino Básico Sintchã Máli, que também serve as aldeias vizinhas, funcionando como centro educativo e social para várias comunidades rurais.

A escola possui três pavilhões, alguns dos quais apresentam condições precárias e falta de carteiras. Muitos alunos são obrigados a levar cadeiras de casa para assistirem às aulas. O estabelecimento assegura o ensino desde o jardim de infância até à sexta classe e conta com 12 professores, dos quais cinco são pagos pelo Estado, enquanto os restantes são contratados pelo Comité de Gestão Escolar, composto pela direção e pela comunidade.

O Democrata soube que, no ano letivo 2025/2026, a escola registou 468 alunos e que, até à data da entrevista, 16 tinham abandonado os estudos.

A infraestrutura encontra-se em mau estado de conservação e não dispõe de vedação, água potável nem eletricidade. Apesar de a localidade beneficiar de energia proveniente da barragem, a escola ainda não possui ligação elétrica devido a limitações financeiras.

Embora seja uma escola pública, os pais e encarregados de educação contribuem financeiramente para complementar os subsídios destinados aos professores.

O chefe da tabanca de Cambessé, Aliu Seide, explicou à nossa equipa que a comunidade enfrenta vários desafios, sendo a falta de água potável um dos mais graves.

“Temos um furo de água, mas há quase dez anos que a eletrobombae o gerador estão avariados. Um técnico veio retirar a bomba para reparação, mas nunca mais voltou. Existia também um poço utilizado para a construção de casas e blocos, mas ficou contaminado. Não temos meios para recuperá-lo. Os poços tradicionais secaram e já não podem ser utilizados”, lamentou.

Outro problema apontado pelo responsável é a educação. Segundo explicou, muitas crianças permanecem fora do sistema de ensino devido à falta de condições e de material escolar.

Aliu Seide informou ainda que os pequenos conflitos são resolvidos através do diálogo. Quando os casos ultrapassam a competência dos chefes das tabancas, recorrem ao representante do régulo de Corubalou ao régulo principal de Sintchã Bonco.

“Temos conseguido resolver a maioria dos conflitos internamente. Contudo, nos casos de agressões com ferimentos graves ou de roubos, recorremos à polícia em Xitole”, afirmou.

Segundo o chefe da tabanca, a população cultiva extensas áreas agrícolas e diversifica as culturas, mas a produção está fortemente dependente das chuvas.

“As mulheres cultivam hortaliças, como tomate, quiabo e mancara, com o apoio dos homens, que também se dedicam ao cultivo de milho preto”, explicou.

ATAQUES DE PRAGAS CONDICIONAM PRODUÇÃO DA CASTANHA DE CAJU EM XITOLE

Relativamente à atual campanha de comercialização da castanha de caju, Aliu Seide descreveu uma situação preocupante, marcada pela fraca produção em várias plantações devido, em grande medida, ao ataque de pragas.

“A castanha de caju é uma das principais fontes de rendimento da população. Alguns agricultores conseguiram vender a produção a preços compensadores, enquanto outros trocaram a castanha por arroz para enfrentar a fome. O preço inicial foi de 250 francos CFA por quilograma. Posteriormente subiu para 500 francos CFA, mas com o início das chuvas caiu para 450 francos CFA”, explicou.

Questionado sobre o fornecimento de eletricidade proveniente da barragem, afirmou que, apesar de a iluminação pública ainda não funcionar ao longo da estrada principal, algumas mulheres já conseguem gerar rendimentos através da venda de gelo e sorvetes.

“Precisamos de mais infraestruturas, nomeadamente escolas, centros de saúde e água potável. Também seria importante termos ensino até ao décimo ano, porque muitos jovens são obrigados a sair da aldeia para continuar os estudos”, defendeu.

Por sua vez, o diretor da Escola de Ensino Básico Sintchã Máli, Alfucene Djassi, confirmou que a instituição é pública, embora conte com a participação financeira dos pais para apoiar o pagamento dos docentes.

Segundo explicou, um dos pavilhões foi ampliado graças a uma parceria entre a comunidade e a ONG IANDA Guiné, enquanto outro foi construído com fundos próprios da escola.

“O Ministério da Educação proíbe o funcionamento de aulas em barracas, razão pela qual tivemos de construir um novo pavilhão com recursos da escola”, referiu.

O diretor acrescentou que a falta de eletrificação limita a utilização de alguns equipamentos.

“Antes deslocávamo-nos a Bambadinca para fazer cópias e impressões. Agora, graças à energia disponível em Xitole, conseguimos reduzir essa distância, embora a escola ainda não esteja ligada à rede elétrica”, disse.

Segundo Alfucene Djassi, as contribuições dos pais variam entre 500 francos CFA por mês, do jardim de infância à quarta classe, e 1.000 francos CFA do quinto ao sexto ano.

“Os valores arrecadados não cobrem as necessidades. Os professores colocados na escola vieram de Bissau e um subsídio de 30 mil francos CFA é insuficiente. Sabemos que não é o bastante para contratar professores devidamente formados, mas a vontade e a determinação têm falado mais alto”, sublinhou.

Apesar da falta de computadores, a escola utiliza tabletes financiados pelo Banco Mundial e telemóveis pessoais dos docentes para apoiar os alunos do primeiro e quarto ano.

“Os materiais têm sido de grande utilidade. Antes, os alunos limitavam-se ao que estava escrito no quadro. Hoje, com os manuais e recursos digitais, o nível de aprendizagem melhorousignificativamente”, destacou.

Sobre o abandono escolar, o responsável mostrou-se preocupado, sobretudo durante o período da comercialização da castanha de caju.

“Quando notamos ausências prolongadas, visitamos as famílias para compreender as razões. Além do envolvimento dos alunos na campanha da castanha, deparamo-nos frequentemente com situações de crianças enviadas para escolas corânicas no Senegal”, denunciou.

EXTRAÇÃO DE ÓLEO DE PALMA GARANTE SUBSISTÊNCIA DE MULHERES EM CAMBESSÉ

Mariato Embaló, produtora de óleo de palma, explicou que exerce a atividade durante todo o ano.

Segundo contou, iniciou o negócio em 2018 e investe regularmente entre 7.000 e 20.000 francos CFA.

“Este trabalho ajuda-nos muito. Às vezes investimos 7.000 francos CFA, produzimos mais de 20 litros e vendemos cada litro por 1.500 francos CFA. Não temos um mercado fixo. Algumas vendas são feitas na estrada da tabanca, outras em Bantandjam. Quando vendemos por grosso, baixamos o preço para 1.000 francos CFA por litro. A máquina que recebemos facilitou bastante o nosso trabalho”, explicou.

Além da produção de óleo de palma, Mariato Embaló dedica-se à horticultura, ao cultivo de mancara e milho e à produção de limão. Também comercializou a sua castanha de caju a 500 francos CFA por quilograma, apesar da fraca produção deste ano.

Salimatu Baldé, membro do Grupo Estrela Unido, explicou que a comunidade recebeu uma prensa da ONG Tostan, equipamento que reduziu significativamente o esforço físico e o tempo necessários para a extração do óleo de palma.

“Esta atividade intensifica-se durante o período de recolha dos cachos. Os apanhadores vêm de diferentes regiões e permanecem temporariamente na aldeia. Os preços variam conforme a época e as condições do mercado”, referiu.

Segundo explicou, o grupo utiliza uma parte dos rendimentos para criar um fundo comum destinado à aquisição de materiais de trabalho.

As principais áreas de comercialização incluem aldeias vizinhas, compradores grossistas de Bissau e o mercado semanal (Lumo) de Bantandjam.

Salimatu Baldé lamentou igualmente a escassez de água.

“Chegamos a armazenar água da chuva num reservatório construído com o apoio de organizações não-governamentais. Quando essa reserva acaba, somos obrigadas a procurar água em outras aldeias, que muitas vezes enfrentam o mesmo problema”, contou.

Relativamente à educação dos filhos, explicou que as famílias conciliam a frequência das escolas públicas com o ensino corânico em horários diferentes.

Por fim, salientou que os casos de violência contra as mulheres diminuíram significativamente graças ao trabalho de sensibilização realizado por organizações que atuam nas comunidades rurais do setor de Xitole.

Por: Epifânia Mendonça

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