Um comerciante de nacionalidade maliana, residente na ilha de Unhocomo, no setor de Uno, região de Bolama/Bijagós, vende produtos alimentares e bens de primeira necessidade e, face à escassez de dinheiro entre a população local, troca grande parte dos seus produtos por peixe.
Ussumane Djiga, conhecido por Toca, vive na Guiné-Bissau há vários anos e começou a operar em Unhocomo em 2015, sobretudo durante a campanha de comercialização da castanha de caju. Na altura, levava à ilha arroz e outros bens essenciais, que trocava pela castanha de caju.
Após vários anos de atividade comercial na ilha, decidiu fixar-se definitivamente em Unhocomo e dar continuidade ao seu negócio.
“Vivo na Guiné-Bissau há muito tempo, tal como os meus irmãos mais velhos. Sou casado com uma guineense de Pitche, da região de Gabú. Gosto deste país e vivo tranquilamente aqui com a minha família”, contou o comerciante numa entrevista concedida ao nosso semanário. Na ocasião, falou ainda sobre a sua atividade numa ilha isolada, que carece de quase tudo, incluindo meios de transporte marítimo regulares e rede de telecomunicações.
“Transformo os peixes pescados em peixe seco para vender em Bissau”
A secção de Unhocomo é constituída por duas ilhas — Unhocomo e Unhocomozinho — consideradas das últimas do arquipélago dos Bijagós. Situam-se a cerca de 15 quilómetros a oeste da ilha de Uno, distância que corresponde aproximadamente a duas horas de navegação em piroga.
De acordo com o Recenseamento Geral da População de 2009, Unhocomo conta com 678 habitantes. Em 1996, as ilhas foram classificadas pela UNESCO como Reserva da Biosfera, devido à sua elevada diversidade biológica.
A mobilidade na ilha faz-se essencialmente por pirogas de pesca, utilizadas também para a evacuação de doentes e mulheres grávidas em trabalho de parto. A viagem entre Unhocomo e a capital, Bissau, dura entre nove e dez horas em canoas de pesca.
Ussumane Djiga explicou que possui dois boutiques e um forno tradicional para a produção de pão (cuduru). Acrescentou que adotou a estratégia de trocar os seus produtos por peixe porque “aqui as pessoas não têm dinheiro, e a única coisa que conseguem facilmente é o peixe. Por isso, faço a troca dos meus produtos por peixe”.
Segundo o comerciante, o peixe recebido da população local em troca de produtos alimentares e bens de primeira necessidade é transformado em peixe seco (escalada), que posteriormente transporta para Bissau, onde é vendido a preços mais vantajosos.
Toca afirmou que foi bem acolhido pela comunidade local e que não se sente discriminado. No entanto, revelou que houve um período em que enfrentou algumas hostilidades, situação que conseguiu ultrapassar graças à sua determinação.
Explicou igualmente que paga o aluguer dos seus dois boutiques no valor de 7.500 francos CFA por mês, além de 5.000 francos CFA pelo aluguer do forno tradicional. Acrescentou ainda o pagamento de 4.500 francos CFA à administração local (Comité de Estado), valor que, segundo disse, contribui para a resolução de problemas da ilha.
Relativamente às dificuldades de telecomunicações, manifestou grande preocupação com a ausência de rede móvel. Segundo o comerciante, os habitantes são obrigados a percorrer vários quilómetros para conseguir fazer chamadas telefónicas.

“As empresas de telecomunicações não podem deixar as ilhas tão isoladas em termos de comunicações. Mesmo em situações de emergência, como um doente grave, não há forma de pedir ajuda. Já imaginou quantas mortes poderiam ser evitadas? Mas, por falta de rede móvel, as pessoas acabam por morrer”, lamentou.
Acrescentou ainda que a população está há cerca de seis meses consecutivos sem qualquer sinal de rede móvel, situação que se agravou recentemente, uma vez que nem mesmo subindo às árvores é possível captar sinal.
Por: Epifânia Mendonça





















